segunda-feira, novembro 17, 2008

Plume


Quando vendi a minha Alma ao Diabo… ele foi gentil!

Quando a comprou
tinha os olhos fixos nos meus,
e os meus não conseguiam desprender-se dos dele.
Estava um calor tão envolvente
que me aqueceu, muito.
Aquecia-me até aos ossos,
depois do longo Inverno.
Só ele me acalmava, e eu, tão fatigada que estava
de correr, e não achar fim…
À minha grande solidão.
Ele surgiu.

Com o sorriso nos lábios avermelhados
pelo vinho, que saboreava calmamente,
sentado na sua poltrona de veludo,
tão vermelha como os seus lábios,
falava baixinho e ao mesmo tempo as mãos, vagarosamente,
acompanhavam os gestos meigos das suas palavras. Disse-me:

- Não te preocupes… tudo correrá como desejas!

Deitei-me a seu lado,
deixei que me acarinhasse,
e aninhei-me nele.
O calor era cada vez maior,
o meu desejo também,
e ele sabia de tudo.

Perguntei-lhe:

- De que depende a minha destreza na Vida, para poder lidar com o desprezo humano?

Ele disse meigamente, colocando o seu dedo nos meus lábios:

- Chiuummm… Ama-me muito.

Encheu um copo, e entregou-mo. Disse-lhe:

-Je suis tellement perdue!
-Moi aussi!
-É bom…
-Bem vejo!

E despiu-se para mim, a cantar:

- Sex... Beat.

A face molhada de Sexo aqueceu-me.
Ofegante… queria senti-lo mais…
mais profundo…
fundo de tanto quanto o podia ter…
em momentos lentos, mas violentos
da minha força carnaz,
enquanto bebíamos o licor
espaçadamente entre os abraços e beijos …
doces,
em que ele com o dedo
me molhava os lábios.
no sofá de veludo…
tudo perfeito
tão suave…
Sussurrou:

- Sexo saboreia-se em doces modos na violência do desejo concretizado.

Pareceu-me que todos os Mortos se levantariam hoje para poderem eles, beijar os seus Amantes,
Se na carne ainda lhes corresse Vida!
Se o tutano ainda lhe humedecesse os Ossos!
Se as pupilas se dilatassem com o Desejo!
As minhas mãos nas suas costas, fecharam-se em abraço... e abraçando-o, disse-lhe:

-Quero-te… quero-te…

Depois disto,
Os mortos descansaram os corpos,
E dançaram com a Alma a balalaica do Desejo.
- Je suis ton fou

- Moi aussi!

As nuvens suspensas no imensurável céu Azul eram também a água evaporada, do suor dos Amantes.
E todos os dias de Sol
me queimaram a face
de sal e rugas...
a pele branca.
Porque só ele me aquece!
Aonde estará ele agora?…

Quando…
voltará a dançar…
a minha Alma?


Violeta


Debaixo do Bulcão poezine
Número 34 - Almada, Outubro 2008


(ilustração da mesma autora)

1 comentário:

ângela ribeiro disse...

Que bom.