Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Da relação, nem sempre evidente, entre poesia e ciência


O blogue "da realidade outra" é expressão, na internet, de um núcleo de poesia da Miau Associação - entidade parceira do projecto Cientistas ao Palco. Aqui fica um poema retirado desse blogue.

movimento perpétuo


Pensamos a partir do postulado
De que tudo no mundo é relativo,
Quando é certo que em tudo o que medimos
é a nossa própria dimensão que achamos.
Em cada óbito o cosmos morre inteiro
E inteiro vai ressuscitar no óvulo
Que, fecundado, vinga.

publicado por Francisco Arcos

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Justiça às serpentes



quem te disse a ti, poeta, que as serpentes são viscosas?
que mania! vê lá se encontras outras imagens, está bem?
por exemplo: há serpentes venenosas, sim
há serpentes muito grandes, enrolam-se ao pescoço
de algumas divagações inconsequentes (desperdício...).
não é muito aconselhável remexer em ninho de serpentes
e há horror arrepiante numa cave onde as serpentes se enovelam.
tudo isso é muito certo. mas não lhes chames viscosas.

viscosas são as lesmas, as almas de gabinete
e os hipócritas que sabem escorregar para cima.


António Vitorino


Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Marasmo a Cismar - poesia de Lino Átila


Dia 14 de Novembro, 16 horas , apresentação do livro Marasmo a Cismar por Lino Átila e convidados :

Betania Map: ilustração e paginação
José Vaz : Actor
Nuno D`Ávila : Músico
Paulo: DJ B.R.O.S

Local: Livraria Bulhosa do Campo Grande 10 B, loja 8 ,
1700-092 LISBOA
Acessos : Metro campo grande , Autocarros : 45,44,21,55,67 e 65

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Na mesa do Santo Ofício



Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.


Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.


José Carlos Ary dos Santos (1937 - 1984)


Biografia em

Sábado, Novembro 07, 2009

Loth fala com o anjo




Sei que na tua presença a vida salvarei
e já que novamente vou nascer
não me ordenes que para as montanhas fuja
Que compreendo eu das coisas entre os mortos
prefiro esta fértil sã campina
eu nada sei das grutas das searas
isto se eu conhecer algum planalto
nem mesmo de semente arado ou chuva
Minha mulher não é das mães que ceifam
e estas filhas que não tiveram varão
que sabem senão só de observar e colher
com olhos nas pracetas de Sodoma
Eu próprio sou juiz nestas muralhas
e à sua porta: eu tudo me esforcei
embora eu me aflija entre os seus grandes
Tenho saudades dos jardins de Ur
se aos teus olhos vivo não me deixes as montanhas
Não gosto de estar só (vê o meu tio Abraão)
ao menos entre os muros de alguma grande cidade
encontrarei refúgio deste grande mal
Há ali uma cidade e por sinal pequena
ao pé dos seus portais permite que repouse
se houver um eucalipto onde me abrigar
dentro do seu espaço ali serei feliz
Parece ser formosa e ter fontes sempre jovens
grandes alamedas e lindas raparigas
Entre eles estarei seguro estou bem certo
de amanhã erguer o que hoje não levanto
que entretanto o sol não sairá da terra
Vê bem o seu perímetro tudo é tão pequeno
por isso se achei graça perante ti viverei
de resto bem conheces o ângulo onde fica
Não derribes os seus muros já que daqui em diante
Zoar é no caminho em frente


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Paladar vital

Irrompe-se em magnitude
Como a força
Um desejo

Passo em frente no ambiente
Para a altitude
Subindo sem parar

Sacudir-se sobre a calma
Ter coragem apenas
Saber olhar o mar

Aquele que nos manda
É uma bomba de vida
Que não nos trai
Se o atendermos
Coração sempre sobre a mente
Como um desejo
Subindo sem parar
Saber olhar o mar

Assim não há destino que nos pare
Numa rocha a girar
Uma luz irradiante

Ter um rio no campo
Que alimenta possante
Uma planta a crescer

Mesmo quem olha de ângulo distante
Analisa o mal falaciosamente
Expressa vontade de viver

Rasgo de lápis na pasta
Como uma construção cuidada
Não estás só nesta estrada

Aquele que nos puxa uma carta
Mostra e remostra sem mostrar
Ilusões são elas próprias

Quem nos manda
É uma bomba de vida
Que não nos trai

Se soubermos para onde vamos
Coração sempre sobre a mente
Não estás só nesta estrada
É impossível desacreditar
Mas ilusões são elas próprias.


Aurélio Engeerling Auffass

Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Acção


Vê, vê!
Vê tu próprio!
Que a tua incoerência vê-se.
Não pelo teu pensar.
Porque não basta pensar.
Podes pensar-te o que não é.
E podes ainda pensar que realmente acreditas
e pensas em algo que não crês
Podes dar-te as voltas que quiseres que só
te enganarás a ti próprio.
E se queres que te diga a verdade
não acredito que o faças por muito tempo.
Porque és esperto demais para isso.
Ou pelo menos julgas-te esperto e dizes que aterraste.
Sei que não queres que eu diga,
que denuncie a tua fraqueza, a tua faceta de mentiroso.
Sei que não queres que eu diga
que és um incoerente, um fraco, um nulo de personalidade, um modas.
Mas quero que o admitas
e vás para casa pensar.
Que a tua ideologia são os teus actos
ligados com um pensar coerente. Age.

Osório
Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Poeta junto a incerto litoral


"Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco"
Bocage

nos teus delírios chispam mil falésias
poeta do veneno da verdade
e o mar revolto em baixo é paramento
na liturgia insana da saudade.

ó filhos desta voz altiva e seca
quem assim vos zurziu, almas penadas?
responde o claro eco: não fui eu
responde o mar: não tenho águas paradas.

(silêncio...)

não brada mais ao mar esse poeta
conhece enfim a dor da humanidade
mas a que tem no peito já o mata
erros seus, má fortuna, flor calada.


António Vitorino

Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Os abismos do pó imenso


Os calores...
impedem-me o deslocar-me,
e resolvo cair nos
abismos do pó imenso,
enquanto os cadáveres das aves-mortas-de-pé
apodrecem ao vento...

há quem espere,
durante anos,
um reflexo novo nas águas dos repuxos...
uma transparência límpida...
onde as mulheres
penteiam os gestos quebrados...

Contaram-me...
que ela morreu no
espanto de existir vazio...

compreendo longamente...



M. Traça Corrosiva

Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Nos espinhos de uma rosa azul

(Rosas azuis não existem ou então não são silvestres..)



A imagem criada por reflexo
das ideias duma cor escrita
inequivocamente,
arde nas mãos desertas
à espera
de se fecharem num sono doce.
A eterna luta
entre o alter eu
e o super eu,
entre o que sou
e o que já me deixei (de) ser.
Estou numa ânsia de permanecer
ou me perder
nas sombras
de sempre.
Não me vou mais ferir
no sangue aflito
por rosas frias
que choram espinhos antigos.

Uma rosa faz sentido
com as suas raizes
bem sulcadas na terra
fresca,
não na memória
perpétua
duma estufa
(fria).


Gabriel

Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Quarta-feira, Outubro 28, 2009


Em tempos fui rei
Em tempos eu era o tempo
Em tempos eu era a vida,
era a morte
A mão que estrangula e destrói,
a mão que semeia cria e gera.
Os olhos que tudo viam,
a face que em prece todos
sonhavam.
Em tempos eu morri
de uma morte cruel
e nasci com o passado.

António Boieiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Arte




Arte morta enfadonha e esquecida
tal nuvem branca em céu azul,
imagem surda e tantas vezes repetida.

Uma face sorridente, que sinto entristecida
Uma árvore forte e segura
em que transformo numa flor desprotegida
ruas alegres e coloridas
onde apenas eu vejo feridas.

É mergulhar em tua face entediada
e permanecer sempre mudo
é virar a cara ao sol e olhar nos olhos a escuridão
e acreditar que todos os risos à nossa volta
são absurdos.


É esvanecer como todas as almas desperdiçadas
que ao morrerem encurraladas no sistema
se sentem atraiçoadas.



João Gomes



Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Poesia Vadia: sessão de Outubro 2009


Poesia Vadia é a designação das sessões mensais de poesia, abertas a todos os que nelas queiram participar. Dinamizadas pelo projecto Poetas Almadenses:
A próxima realiza-se sábado, 24 de Outubro, no Le Bistro Café (Almada, Largo das Andorinhas). A entrada é livre.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Gambuzine: em Dezembro, com textos de colaboradores do Debaixo do Bulcão


Está quase. Falta mesmo pouco para que apareçam por aí novas BDs e outras coisas visualmente (e/ou intelectualmente) estimulantes. Mas, desta vez, com um bónus: a colaboração de Catarina Henriques e António Vitorino - autores que, como se sabe, muito têm dado a este projecto bulcânico.


Informações no site do Gambuzine:



Vão passando por lá.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

“A Poesia é p’ra Comer”


17 de Outubro às 17h30 – Sala Pablo Neruda, Fórum Municipal Romeu Correia (Biblioteca Central de Almada)


Receita poética:

Escolhe-se uma poesia, o ingrediente principal.

De seguida juntam-se mais alguns ingredientes que combinam gastronomicamente palavras e sentidos. Inspiração e criatividade q.b. Serve-se com alegria e acompanhada de amigos.

Grau de dificuldade: simples

Cada poema virá acompanhado de um doce, numa partilha de sentidos que se pretende inovadora.

Venha saborear esta doce poesia connosco!
Entrada Livre

Organização: Biblioteca Municipal de Almada e Poetas Almadenses.