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terça-feira, dezembro 22, 2009

VIVO




Olhar aquele cigarro aceso que desejo
E que é meu e que levo à boca
Faz-me sentir vivo

Olhar o céu e sentir o chão debaixo dos pés
Caminhar ao Sol ou à chuva
Faz-me sentir vivo

Numa oração a um deus tão igual e tão diferente
Eu peço:
Faz-me sentir vivo

Faz-me sentir vivo.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 11 - Almada, Dezembro 1998

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Underground

Na mesa o tabaco onde
homens de pão de lata
em cinza conservam o fumo
no duche de pedras nuas,
em que os filhos pretos
de raiva misturam ideias
vazias no prato de sopa.
Ah! Mafalda, Mafalda!
Porque é que não és
a janela do umbigo de
dentes ocos.
Palavras, palavras.
Trás, trás, bateu o vento.
Os homens de pão de lata
em cinza desataram a gritar
foda-se, foda-se.
A luz da madrugada rompe
a escuridão da noite e
os homens de pão de lata
em cinza saltitam no esgoto
da mesa a vida.
Sombras de cão que vadiam ao luar
pelo fogo do candeeiro
que na janela da rua
os pássaros cagam liberdade.
A noite esvai-se.
E, num soluço,
é dia.


Flávio Andrade
(Debaixo do Bulcão 11, Dezembro 1998)

Queria

só queria ter um poema
na palma da mão
para to oferecer
do fundo do coração

só queria ser um ponto
numa folha em branco
e pudesses ver
como te amo tanto

só queria ter um amor
eterno de um grito
feito por nós dois
mais que o infinito

só queria ser um corpo
teu e meu sem fim
único no mundo
que fosse sempre assim


Jorge Caldeira
(Debaixo do Bulcão 11, Dezembro 1998)
Isolo-me num mundo
onde todos me parecem pontos finais
... e surgem as interrogativas
perguntam-me o porquê de tanta solidão

As exclamações rodeiam-me
e o imperativo sugere-me reticências

O ponto e vírgula assustam-me
e as vírgulas...
... as vírgulas são as minhas
companheiras de solidão,



Maria de Lurdes Ferreira
(Debaixo do Bulcão 11, Dezembro 1998)