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domingo, janeiro 10, 2010

estado (s) de alma

Não sei se gostas de teatro ou de cinema
De Poesia ou de Drama
Não sei se gostas de ler ou ouvir música
Do azul ou do vermelho
Da seda ou do algodão
Não sei se gostas de Sol ou de chuva
Da Primavera ou do Outono
Do mar ou do campo
Não sei se gostas dos Rolling Stones ou do Frank Zappa
Do branco ou do preto
Não sei se gostas de cães ou de gatos
De ouro ou de prata
De pérolas ou de diamantes
Não sei se gostas de Salsa ou de Tango
De andar de avião ou de barco
Não sei se gostas de cravos ou de tulipas
De dança clássica ou de moderna
De pintura ou de escultura
De Picasso ou de Rodin
Não sei se gostas de mim ou de outro
Se me conheces ou se me reconheces

Não tenho desculpa para tanto desconhecimento
Não encontro desculpas para tanto desconhecimento

Sei isso sim do que eu gosto
Dos teus cabelos e dos teus lábios
Do teu sorriso e da tua voz

E porque tenho sempre a liberdade de sonhar
Ninguém pode proibir-me de te amar

Alma de(a) 10 Julho 1998


António Marques


Debaixo do Bulcão poezine
Número 12 - Almada, Janeiro 1999

sábado, janeiro 02, 2010

Insónia



Após o tempo aquático quando a chuva vela, vem então pela janela do meu quarto uma frescura nocturna, como se as horas condensassem todas as brisas do dia, num polvilhar repentino de luzes quietas e nítidas de um branco amarelado, ao fundo quase vermelho, testemunhas mudas do ruído, ao longe, dos veículos dispersos. Pela rua, onde tudo dorme alheio e igual, um silêncio móvel e vibrente torna agradáveis as árvores estáticas e as janelas envidraçadas no dormente pálido do ar. É de facto a noite, luzindo misteriosa, trazendo nos seus dedos vastos e antiquíssimos, um não sei quê de amargura e de alegria. Perdi o sono, lá para trás entre tantas ruelas difusas de multidão, e escrevo sem sonhar, companheiro anónimo do luar no lago da noite, esfarelando o tempo entre os dedos ávidos de sonho, olhando indiferente as migalhas do tédio em que a minha consciência se abandona.

No grande claustro deste mundo sossegado, o pórtico rendilhado das sensações abre o seu sorriso estelar, ao fim das lajes da procura, para outra sala abobadada. No prédio em frente, incadeado pela luz pérola de um grande candeeiro tricéfalo, um morador tardio aproxima-se do vidro baço da porta, preparando-se para subir. Os outros caem no esquecimento momentâneo da vida, até projectarem os punhos amarrotados e dançantes numa curva rápida a caminho da sua inércia primitiva.

De repente, tudo é morto, pavorosamente apodrecido pelo espasmo absurdo das coisas. Tudo é o mesmo igual, grande jazigo de vidro onde repousam os gestos diluídos e abstractos. E é, como um grande palácio de Tsarkoie de cartas de jogar, varrido ocamente pelo vento, metáfora inútil à luz submersa das cúpulas, derretidas sob o meu olhar demorado e vazante de tudo ser assim.

Antigamente, eu brincava no patamar recôndito daquele sétimo andar, onde a grande varanda traseira boiava ao luar real, concentrando nos meus olhos indagantes de criança. Parava, com as mãos rodopiantes, a pequena bola colorida e transparente, e olhava o escuro suspenso sobre o mural laranja, gozando a impressão dormente de ser uma estrela. Vivia assim o meu sonho secreto e a noite era límpida ao olhar-me através dos seus cabelos envolventes. E eu ficava, sentado contra a parede ao pé da porta, a luzir nos seus olhos misteriosos, como uma anémona arrancada ao fundo invisível do mar.

Antigamente, o vasto e morno real dos desertos perdidos, onde os meus passos se trocaram para este caminhar insubmisso pelas fragas da memória, onde as rochas dilatam fundas formas surreais, como chamas de pedra prolongando os olhos fossilizados para este lado da vida. E o que sou por fora, são essas ruínas arquétipos do antigamente, dispersas pela floresta de chuva dorecordar. E o que sou por dentro, descolora-se no sorriso cúmplice do maquinista da locomotiva velha em cima do móvel, partida da gare do ontem, entre as ervas velhas da linha de ferro, para a cúpula da chegada do futuro, onde não sei quem era, e minto quem não sei ao certo se fui eu.

E esta noite vegetativa, segredo vácuo e caminhante pelo rolo dos tempos, e a grande inércia indecisa que chega dos quatro cantos do quarto, são grandes esferas de silêncio com árvores e luzes lá dentro, recolhidas pela rua deserta até ao ponto de alguma espécie de infinito oculto para a paisagem.

Ontens, hoje, horas, noite, pequenas secretas brincadeiras felizes de terem sido, espuma no espaço, que se dissolve na percepção de terem sido notadas. Caixa de vidro rachado das nevralgias possíveis, traço rápido dos faróis diagonais e vastos no negro modular de tudo, onde eu, por um acontecimento casual da vida, mergulho recolhido a um canto, como um esquecido frasco vazio...

Quem me olho? Que sinto? Tudo dorme como um grande lago estagnado...


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 12 - Almada, Janeiro de 1999

sexta-feira, janeiro 16, 2009


Escrever um poema
refúgio, momentâneo
do medo permanente
A alegria do Futuro
inspira-te um
outro refúgio
menos sombrio

rmr

Debaixo do Bulcão poezine
Número 12 - Almada, Janeiro 1999

terça-feira, janeiro 23, 2007

O que falta?
- O que se tem nunca é suficiente.
O que se quer?
- Não se sabe, perde-se em conjunturas
de sonhos infantis.
Vive-se a réstea da infância
num mundo que não é para crianças.
A centelha do sonho perde o brilho,
pouco a pouco a luz torna-se ténue,
vazia, sem calor.
A carne tomba
e o espírito vagueia, perdido,
gritando desesperado
por outra carne,
outro sustentáculo,
outra infância.


António Boieiro
Debaixo do Bulcão 12 - Janeiro 1999
Nota biográfica sobre o autor, no blog
Poetas Almadenses

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Origens

As crianças
O elevado estado de pureza
Que a psicologia desmente.

Projecto de homens
Com cor
Nacionalidade
Naturalidade
Filiação.

Dá-se início à segregação
O menino de Angola
Da Europa.

Preto
Branco.

Rico
Pobre.

Puto de rua
Garoto das barracas
Menino da cidade.

O destino marca a sorte!

Depositado nos
Infantários?
A pedir esmola?
Um orfanato?
Ainda agora nasceu
E já está abandonado
Deitado à solidão.

Quem os irá tornar
Seres culturais?
Quem?
É a geração
Dos filhos de ninguém?


Nagui de Andrade

Debaixo do Bulcão 12, Janeiro 1999

terça-feira, janeiro 16, 2007

Água nos olhos da noite

"Eu amava como amava um pescador,
que se encanta mais com as redes que com o mar
Eu amava como jamais poderia
se soubesse onde te encontrar"
(Oswaldo Montenegro in "Lua e Flor")



Nos escombros do meu corpo,
que a madrugada abrasa e o luar melancólico ilude,
vão cisnes selvagens renascendo
do lago imenso e prateado
que as primeiras chuvas transbordaram.
Atento,
roendo esta nostalgia e arqueando as horas
inultrapassáveis,
fica-se o meu olhar de silêncios
no céu digno e luminoso
tecido de fragilidades e acordes de lira
que apenas a solidão é possível escutar.


Helena de Sousa Freitas

Publicado em Debaixo do Bulcão nº12
Janeiro 1999

(Mais informação sobre esta autora em:
Letras e Estudos Luso-Canadianos
jornalismo-literatura.com

quarta-feira, janeiro 10, 2007

A autêntica estação

Inverno: vou pela Morais Soares -
por sinal sempre alegre sobre o dia
descido do autocarro ao pé da Avenida
o dia é escuro e eu na palidez à deriva
E há uma chuva que me molha os olhos
São infinitas saudades de tanta coisa -
a luz o que és uma certa intimidade
o exílio no olhar: quem me deras tu
aí onde brilha o verdadeiro sol
São infinitas saudades da tua estação -
mês após mês a única autêntica estação


António José Coutinho
Debaixo do Bulcão 12, Janeiro 1999

terça-feira, janeiro 02, 2007

1 de Janeiro de 1999

Na soalheira manhã deste dia de hoje onde a proximidade do terceiro milénio começou há pouco a ser de dois anos, encontramo-nos todos mais ou menos distantes uns dos outros, tal como tem que ser.
Se ao acordarmos para este primeiro vislumbre do Sol deste primeiro dia em que será para muitos o primeiro começo de muitos outros começos pode ser que consigamos ver a beleza que carregou esta manhã até nós; se assim for que importam todas as ausências?... importam exactamente isso; todas as ausências que importam alguma coisa neste dia importam sempre a mesma coisa: um sentimento de perda, nem que temporário/a.
Está Sol, pronto já disse, pronto já repeti.
...
...
e então, sorvendo com avidez golos grandes desta luz engulo como pão sagrado todas estas ausências que fazem então (ainda) parte de mim.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão 12, Janeiro 1999