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sábado, abril 24, 2010

Tanto mar


Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque de Hollanda

(poema - canção de 1975, composta a propósito da revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974)

sábado, abril 25, 2009


(Cartaz comemorativo do 5º aniversário da Revolução dos Cravos.
Edição da Comissão Organizadora das Comemorações do 25 de Abril, Dia da Liberdade - 1979)

quinta-feira, abril 23, 2009

Comemorar o 25 de Abril com poesia, em Almada!

O MEU 25 DE ABRIL
em poucas palavras
Instalação de Poesia Colectiva


No dia 24 de Abril os cidadãos de Almada, e todos os outros, são convidados a passar pelo Forum Municipal Romeu Correia e escrever uma mensagem, em poucas palavras, sobre o seu 25 de Abril. Que, este ano, já faz 35 anos de vida. E de festa.

Forum Municipal Romeu Correia
Câmara Municipal de Almada
24 de Abril de 2009, das 10 às 18 horas

quarta-feira, abril 22, 2009

25 de Abril




Sensação inútil de desespero,
Faseada com doce loucura,
Intercalada com medo,
Num misto de êxtase e ternura.

Maldita hora em que o provei,
pois sonhei que o poderia domar.

Os corvos abandonaram-nos à chuva,
Na nossa troca de sorrisos e cumplicidades,
Sozinhos na multidão que festejava,
O início de uma nova era, de novas liberdades.

Atravessei o rio que nos separava,
Engoli em seco e avancei,
A responsabilidade,
O peso da desilusão,
Ardia por dentro,
Os sonhos de uma canção.

Amor/fulgor/sabor,
Caminha letargicamente depressa na minha direcção,
Amei-te sem receios,
Como os sonhos de uma canção.

Aniversário inocente,
Desta indescritível frustração,
Vem, pára, olha,
Em mim desabaram os sonhos de uma canção.

Mais uma pétala deste livro,
Que se desmembrou,
Caiu,
Na minha mão.


Jorge Ramalho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 25 - Almada, Abril 2004

segunda-feira, abril 28, 2008

Abril

Abril…
Libertador das amarras da censura
Grito de raiva e de revolta!
Rostos sorridentes
Livres
Porém...
Lenta e difícil democracia
Que tarda a chegar ao povo inteiro
Liberdade!
Existe com certeza.
Mas falta confiança no futuro
Num País à deriva de si próprio.


Mário Margaride

No blogue Canto Poético
http://avano2006.blogspot.com/

sexta-feira, abril 25, 2008

Venham Mais Cinco - José Afonso

um dos "hinos" do 25 de Abril...




Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá
Se tem má pinta

Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
Dàquém e Dàlém Mar
Não me obriguem

A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar
A gente ajuda

Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura

Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe
Não me obriguem

A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar
Bem me diziam

Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

José Afonso

pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Afonso

sexta-feira, maio 25, 2007

A Ponte

(...a ponte... pronto, Salazar!...)
















salazar grande estadista era também um tipo esperto:
está-se mesmo a ver que quando construiu a sua ponte
do pragal até alcântara era só para bater certo
com o nome árabe de alcântara que significa a ponte.

se não fosse a ponte a margem sul era hoje um deserto.
se não fosse a ponte não víamos lisboa tão defronte.
louvemos pois salazar o homem perto
da perfeição: não sei como há quem defeitos lhe aponte.

e aproveitemos para atravessar a ponte várias vezes
ora de cá para lá ora de lá para cá.
é bela a vista da ponte: faz-nos esquecer os revezes

da vida e da portagem que nos coube em sorte e que há
só para gratificar a lusoponte pelo favor que nos faz nos meses
de agosto em que não desembolsamos. que sobre para as férias. oxalá!


António Vitorino
publicado em Debaixo do Bulcão poezine
número 25- Almada (Margem Sul), 25 de Abril de 2004

Sobre a Ponte 25 de Abril:
Artigo na Wikipédia
Video da inauguração

quarta-feira, abril 25, 2007


















78
Sei que as palavras
São fracas armas
Para a nossa luta

Mas alguém tem que dizê-las
Pobres e simples
Como estas
Que digo:

(por exemplo)

- O que pensas
Da palavra
Revolução?

79
Se pudesse
Acendia
Com o fogo
Do meu sangue
As letras
Para escrever
O teu nome
Liberdade

80
Vamos fazer dos cravos
Espingardas florindo
Nas mãos do nosso povo

81
Um português talhado
No sonho de granito
De libertar o Povo

Como este tão amado
Só de mil em mil anos
Acontece de novo

João Apolinário
Poemas Cívicos, 1979

Vampiros






No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Zeca Afonso
"Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra"
LP, 1963

terça-feira, abril 24, 2007

Conversa de dois amigos













Eh pá há tropas no Terreiro do Paço.

Tens Horas?

Eh pá há tropas no Terreiro do Paço.

Que dia é hoje?

Tropas, na rua de arma na mão.

O quê? Discurso do Marcelo?

Estás a ouvir?

Liga o rádio! Liga o rádio!


Lino Átila
Debaixo do Bulcão poezine
Nº 25 - Almada, Abril 2004

GRANDOLA, VILA MORENA

A famosa canção de José Afonso que, na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, serviu de "senha" para o desencadear das acções revolucionárias do Movimento das Forças Armadas.

domingo, abril 22, 2007



















Que dor imensa, triste sina,
o cravo murchou,
morre a vindima.
O Alentejo chora
lágrimas de seca.
O operário solda
a alma
sem salário.
A hipocrisia tomou posse
em forma de trabalho.

A repressão na rua continua:
se gritar liberdade
dizem que é vaidade,
que não sabes trabalhar.
Como é que posso trabalhar
sem ser explorado,
sem ser louco mandado,
marioneta do capital,
sem vender a identidade?
Mas se grito sou mal educado,
sou mal tratado,
louco varrido.

Triste sina,
qual a melhor sorte?
Estar calado, voltar ao novo estado.
Se grito estou tramado.
Será que não voltámos ao novo estado
só que este está disfarçado.

Abril está esquecido,
escondido em ruelas escuras.
Os capitães são ruas,
alamedas que ninguém sabe o nome.
Já não há cravo na lapela,
está perdido na viela.

António Boieiro
Debaixo do Bulcão poezine
Nº 25 - Almada, Abril 2004

sábado, abril 21, 2007

25 de Abril











As mãos
As palavras
As torturas
As lutas
A dor da clandestinidade.

Ano após ano
Festas populares
Fogo de artifício
Música de intervenção
A minha emoção
O respeito
Pelos que como eu
Acreditam na liberdade!

25 de Abril de 74
Calaram-se as armas
Resistência e Morte
O Sonho tornou-se realidade
Liberdade e
Evolução social!

30 anos após a revolução!
Sonhámos?
O que conquistámos?
Povo - ditadura consumista
Educação - obrigação e deformação
Cultura - subsídios e públicos
Saúde - favorecimento e corrupção
Justiça - ficção social!

Se ainda somos Humanos
Basta desta deterioração,
Humilhação,
Aniquilação!

Ana Monteiro
Debaixo do Bulcão poezine
Nº 25 - Almada, Abril 2004

sexta-feira, abril 20, 2007



Abril, 25




É em Abril que comemoramos liberdade
desejando sempre: liberdade igauldade fraternidade
algo que nunca é próprio apenas de uma idade

aquilo que é:

eternidade na mocidade de toda esta cidade



João Mota

Abril e a paz

(lembrando o alferes Barros de Moura)



A paz chegou em Abril
Por vontade do Povo fardado
Pelo querer de soldados e sargentos
Alferes e capitães
No mato da Guiné
As armas começaram-se a calar
Quartel após quartel
Num efeito dominó
A guerra simplesmente terminou
No chão de Bissau
Anunciando o fim da Tirania
As G3 floriram
E brotaram dos seus canos
Cravos vermelhos feitos de papel



Henrique Mota
Em Debaixo do Bulcão poezine
Número 25 - Almada, Abril 2004

quinta-feira, abril 19, 2007

o cravo discursa

25 de
abril

revolução!

grândola
vila
morena

cantou o
poeta

terra da
fraternidade

não
sei
onde
fica


sei que
existe

já não
é
mau

pr'á
próxima (revolução!)
espero
não me
perder
enquanto a
procuro



João Zarco
Em Debaixo do Bulcão poezine
Número 3 - Almada, Abril 1997

Nota: João Zarco é pseudónimo de Jorge Feliciano.
Mais textos deste autor no blog
Livra-te Mundo!

quarta-feira, abril 18, 2007

O Cravo

A todos os que lutaram por Abril
mas especialmente a Francisco Lino, o meu rebelde bisavô,

pela fé inabalável que depositou na liberdade.













A 25 de Abril de 1974
festejou-se a liberdade e o sonho,
com hinos nos lábios,
com votos renovados de esperança.
Com o País aberto à verdade,
e os braços estendidos aos Heróis,
às promessas e à confiança.
Foi dia de luta, de lágrimas,
de adeus às armas, de acolhimento.
De um sorriso para uma certeza.
As prisões e as torturas
queriam-se longe da lembrança,
pois agora reforçavam-se os desejos
de uma Pátria nova, renascida,
de uma Pátria nova Portuguesa!

Porém,
o tempo passou,
e um cravo rubro, solitário,
ficou na estrada tombado...
As desilusões esmagaram-no
e o Homem Novo ignorou-o,
tomando-o por vinho entornado.

E hoje,
é recordado com brindes e discursos de glória,
esse dia que ninguém esqueceu.
Mas há novos pés no silêncio a pisarem
aquele cravo de sangue exaltado e vitória
que no auge da festa alguém perdeu!...

No futuro,
uma criança,
brincando na areia da estrada,
encontrará o cravo,
que à revolução foi ceifado.
Ao romper de uma aurora,
em vigor, plantá-lo-á de novo,
para que a fé não se apague.
E crente nas razões do povo,
na sua justiça, na sua dor,
estará a plantar, sem o saber,
a mais doce força da Saudade,
e o mais intenso poema de Amor.


Helena de Sousa Freitas
Setúbal, Dezembro de 1997
(Publicado em Debaixo do Bulcão poezine
número 10 - Almada, Setembro 1998)

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