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terça-feira, dezembro 22, 2009

VIVO




Olhar aquele cigarro aceso que desejo
E que é meu e que levo à boca
Faz-me sentir vivo

Olhar o céu e sentir o chão debaixo dos pés
Caminhar ao Sol ou à chuva
Faz-me sentir vivo

Numa oração a um deus tão igual e tão diferente
Eu peço:
Faz-me sentir vivo

Faz-me sentir vivo.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 11 - Almada, Dezembro 1998

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Êxtase de milhões de mega-unidades de sensação


Colocado directamente no virtual processo,
Encaixo-me no arquivo-ajuda
De extensão extremamente reduzida.
Teclo os dentes com estes dedos
De unhas roídas
E observo aquele "porco" do rato
Morto há três dias.
Navego, sentado, com um cigarro numa mão
E o rato (quase) completamente inanimado na outra
E o olhar parado vê... finalmente
Uma malha aberta na rede
Por onde me posso escapar.
Assim faço.
Aquele caixote iluminado
Que estranhamente não é bem uma televisão,
Mostra-me no écran
Aquilo que eu vejo para o meu futuro
(O écran está completamente negro)
E é a negrura
Que não tem nada de noite
E que tem tudo de ausência...
Que eu olho...
...

E lixado com isto tudo, apago o cigarro,
E digo para o meu gato que dormia sossegado:
- A merda da máquina deu o peido!!
E estranhamente cheirou-me mal.........
O gato acabara de se peidar para mim.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 1 - Almada, Dezembro 1996

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Por: ali



...onde todos os lugares se juntam
Onde o olhar se acerca do amor (... que palavra feia!)
Olhamos ternos aquilo que queremos com querer


O olhar debruça-se finalmente por
Sobre a vontade de amar... acima de tudo


E então olho o céu; e o céu olha-me
Já um pouco cansado... lembro-me:
Sou um adolescente velho


O olhar debruça-se finalmente por
Sobre a vontade de amar... acima de tudo


... dou mais meia-volta e vou-me




José João Mota


Debaixo do Bulcão poezine
Número 7 - Almada, Dezembro 1997

quinta-feira, agosto 02, 2007

Os poemas têm sempre algo de belo

Isto não é um poema


Esta história começa mais ou menos assim:

Era uma vez, um grande grupo de animais esgravatadores cuja sua grande riqueza, e fonte de poder, como é qualquer riqueza, era nada mais que as sementes que serviam para eles comerem, e que fazia com que eles passassem a maior parte das suas vidas a esgravatarem.
Um desses animais esgravatadores, um entre muitos; diferente também de muitos; mas também igual a tantos outros; esgravatava esgravatava. E quando o sol se punha, que naquele lugar era de mês em mês, reparava sempre ao pôr do sol, e portanto ao fim do dia, que as sementes que tinha consigo não lhe permitiriam nunca, por-si-só chegar ao dia seguinte (estes animais só necessitavam de sementes para serem eles próprios, para viverem e para se sentirem vivos).
Com pesar via então que no fim de todo aquele dia inteiro (que lá durava um mês), a sua riqueza era bem menos que suficiente.
Quando os outros que lhe eram chegados o viam de bolsos virados do avesso (que era o sítio onde guardavam as sementes) e viam a ridícula riqueza que era aquele pequeníssimo montículo de sementes que era o seu sustento até ao fim do dia seguinte (que durava um mês), diziam:
- Tá-bem toma lá estas sementes que me fazem muita falta porque também eu passei o dia a esgravatar e é claro que eu sou um esgravatador muito melhor que tu. De certeza desperdiçaste muitas sementes que te caíram dos bolsos. A mim nada me cai dos bolsos porque eu não sou um mau esgravatador como tu.
E o nosso esgravatador pobre recebia sempre as sementes que os outros lhe davam e nem sequer podia chamar-lhes uma "caridade" porque entre pessoas chegadas é uma palavra muito feia, que possivelmente por bom senso nem consta no dicionário. E sabia também que o facto de os outros esgravatadores não deixarem cair sementes dos bolsos era de certeza uma grande "treta", perdoem-me a obscenidade do palavrão. Mas prosseguindo, ao fim ao cabo, por muito bom esgravatador que se seja, escapam-se sempre algumas sementes dos bolsos para fora e que se perdem; ou não fosse a prova disso a vegetação multicor que se espalhava sempre e florescia pelos prados.
O pobre esgravatador a cada oferta fingia que realmente estava quase convencido que era um mau esgravatador e sabia que no dia seguinte logo mal passasse um mês (porque lembremos que ali os dias duravam um mês) tudo se voltaria a repetir.
-A história não acaba aqui
- A última vez que vi o esgravatador (personagem central desta história)...
- Ele estava muito mais magro; qu'engraçado!
José João da Costa Mota
Debaixo do Bulcão poezine
Número 4 - Almada, Julho 1997

sexta-feira, abril 20, 2007



Abril, 25




É em Abril que comemoramos liberdade
desejando sempre: liberdade igauldade fraternidade
algo que nunca é próprio apenas de uma idade

aquilo que é:

eternidade na mocidade de toda esta cidade



João Mota

quinta-feira, abril 05, 2007

Lembras-te Daquele Gajo?

Estou por aqui
O bafo quente do Verão tocou-me
… Atingiu-me…
O fim da tarde vai-se, tranquilo
E eu fico; não… (tranquilo)
E os olhares primaveris
De quem ainda poucas primaveras viveu
Entrelaçam-se entre os jovens casais
Nem Primavera, nem Verão
Que raio de tempo este
Tempo que para os ingleses…
São duas palavras
“Time” e “weather”
Uma com significado horário
Outra com significado meteorológico
Para nós apenas uma… vai chegando
Misturando horas, com dias de nuvens ou sol
E assim também os poetas
Também eles, se confundem
E confundem os outros… com os seus mistérios
O sol que nasce para todos já se pôs
E o olhar apagar-se-á… no quarto vazio
E o sonho ficará para sempre
Como que num coma eterno
Como que eternamente ligado
… A uma máquina, de vida artificial
E eternamente morto, mas a respirar
E todos nós; todos nós
Continuaremos a continuar
Todos nós olharemos aquele sol
Que nos é comum
E todos nós;…
Cada um tentará impor a sua vontade
Aos outros
Nem que seja…
Fazendo-os pensar que a ideia foi deles próprios
E crucificaram o… Desculpem era a maioria
Mas crucificaram um gajo p’raí há 2000 anos
E continuam a pedir-lhe desculpa
E ainda por cima o gajo já morreu
Há p’raí 2000 anos; sim… é verdade
Também eu tenho uma coisa para dizer aqui!:

Desculpa lá essa cena pá!





















José João da Costa Mota




Publicado em
Debaixo do Bulcão poezine

Nº 6 – Novembro 1997

terça-feira, março 27, 2007

Fomos deixando o nosso destino
gravado numa montanha feita ardósia,
num palco onde desfilámos personagens e máscaras
onde fomos tudo menos nós.
Vamo-nos encontrar um dia, por aí
rasgaremos um sorriso cúmplice;
ou negaremos o presente
que nos leva a um carrasco cruel,
que levanta o cutelo pronto a decapitar-nos as promessas, outrora juradas?


Magda Ortins









(Ilustração de
João Mota
para
Debaixo do Bulcão poezine
nº29 - Março 2007)




Fomos outrora nós
Agora fazemos parte de um bocadinho duma praia
misturados com os grãos já de sílica também a pele.
O olhar esse de espanto
A esperança... - Essa sempre Ali acolá
- Sabendo-me não eterno aqui
Enrosco-me nos cobertores Às vezes rezo

02/06/2004, (03h06m)

João Mota

Poemas publicados em
Debaixo do Bulcão poezine
nº29 - Março 2007

segunda-feira, março 12, 2007

Olho-te

No centro da imagem
Que reflectias
No centro da pupila do teu olho
Esquerdo...
Esqueço... nada é constante... na imagem...
... Real ...
Fico desesperadamente, esperando...
Estagnar esse teu sorriso numa foto
Absolutamente concreta... no meu imaginário.
Mas não te grafo
Não deixo de forma... alguma...
... A tua forma... gravada
A imagem move-se mais rapidamente que o tempo
E é a imagem: luz...
(A única constante do universo: a sua velocidade).
Os meuos dedos percorrem então os teus olhos
Na tentativa de me apropriar de ti:
(Da forma; formas...)
O olhar é agora lançado através
Da ponta dos dedos
E o olhar; este é divino
Descubro então agora:
- Agora somos deuses!... Agora!


José João Mota
Debaixo do Bulcão 2 Março 1997

terça-feira, janeiro 02, 2007

1 de Janeiro de 1999

Na soalheira manhã deste dia de hoje onde a proximidade do terceiro milénio começou há pouco a ser de dois anos, encontramo-nos todos mais ou menos distantes uns dos outros, tal como tem que ser.
Se ao acordarmos para este primeiro vislumbre do Sol deste primeiro dia em que será para muitos o primeiro começo de muitos outros começos pode ser que consigamos ver a beleza que carregou esta manhã até nós; se assim for que importam todas as ausências?... importam exactamente isso; todas as ausências que importam alguma coisa neste dia importam sempre a mesma coisa: um sentimento de perda, nem que temporário/a.
Está Sol, pronto já disse, pronto já repeti.
...
...
e então, sorvendo com avidez golos grandes desta luz engulo como pão sagrado todas estas ausências que fazem então (ainda) parte de mim.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão 12, Janeiro 1999

sexta-feira, dezembro 22, 2006

O solitário e individual hábito do café

Chego
Não conheço ninguém
Observo em meu redor
Com todo o meu olhar de...
Animal de caça.
Vejo três possíveis lugares
Procuro aquele que
Satisfaz melhor a camera "fixográfica"
Que tenho nos meus olhos
E congelo cada instante.
(Agora já sentado a uma mesa,
Cigarro fumegante no cinzeiro).
O olhar do empregado dirige-se
Para mim...
Peço então numa voz estudada há já muito tempo:
- É um café e um copo de água, se faz favor

...
- Sai uma bica.


José João da Costa Mota
(Debaixo do Bulcão 1, Dezembro 1996)