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quarta-feira, dezembro 23, 2009




o dinheiro não tem raça
mata todos por igual
todos os pobres da praça
esperam o seu pai natal

e se o pai natal não vem
já não faz mal, tá-se bem
bebe-se um copo a doer
fumos depois de beber


Affonso Gallo
http://affonsogallo.blogspot.com/

Debaixo do Bulcão poezine
Número 7 - Almada, Dezembro 1997

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Ataque de esquizofrenia cultural no terminal rodoviário de Cacilhas




à espera de transporte pró seixal
num microcosmos de cervejaria
tou vendo a emissão lá da bahia
("imagina o brasil sem carnaval") *

enredo-me neste reino animal
sonetando a ventura de hoje em dia:
a estamparia cultural que é minha.
isto assim não está bem. mas não faz mal:

aqui num portugal de pequeninos
eu não olho pró lado: já bastavam
as grandes porcarias que os meninos

sempre fazem na lama em que se encharcam.
são muito europeus: são sibilinos
e se mais mud houvera lá chegaram.



*(pergunta retórica de Daniela Mercury
em entrevista à TV Record, emitida em Portugal a 16 Fevereiro 2007)


Affonso Gallo (poema inédito)

(foto de António Vitorino: grafiti em Cacilhas, Abril 2008)

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Indo o autor com um amigo pela estrada da vida, pediu-lhe opinião sobre seus amores tão delicados


já pelo verde prado que apenas
existe numa óptica poética
no silogismo firme e na métrica
mas nunca nos teus olhos de helenas

tocava o tocador suas avenas
chorava o poeta sua ética
sofrias tu de fome anoréctica
e eu pasmava já de tantas cenas.

foi então que pedi ao viajante
que comigo sulcava o prado raso
opinião palpite dica oráculo.

afirmo (respondeu esse pedante)
ser este muito estranho e raro caso
mas eu para profeta sou bem fraco



Affonso Gallo


(ilustração de Jorge Feliciano)

sexta-feira, setembro 19, 2008

Soneto para ursos

não pares; deixa ir o desvario
das lágrimas que o mar irão salgar.
é esse o sal dos olhos, o penar
na tristeza do inverno, duro e frio.

mas por força de lei, fatal natura
teu amargo hibernar acaba agora:
não pares pois chegou a nova hora
vai ao pote de mel, o amor perdura.

e enquanto o doce alimentar o cio
não te queixes, ursinho, a vida é breve
(dois dias de alegria, outro de azar)

balouça, brinca a prumo nesse fio
arvora-te no ar, de ânimo leve;
inspira, bebe, deixa de pensar.



Affonso Gallo

(affonsogallo.blogspot.com)

Debaixo do Bulcão poezine
Número 5 - Almada, Setembro 1997

segunda-feira, agosto 18, 2008

Relaxe




o tempo está bom mas é pra férias
por isso vou volatilizar
o pato que aprendeu a voar:
cansei-me de escrever coisas sérias.

vamos então dar nos versos beras:
qualquer coisa para sonetar.
um soneto que saiba nadar
incógnito com outras bactérias

em rimas tão finas quanto areia
que se molda como se quiser
em forma que pode ou não ser feia:

pode ser um pato ou mulher.
e voltar ao pato à tal ideia?
isso não me apetece fazer.


Affonso Gallo
(Agosto 2003)

affonsogallo.blogspot.com

domingo, junho 22, 2008

Na noite de São João




quando era pequenino eram fogueiras
as noites de são joão. hoje marchantes
marcham nas avenidas cintilantes
coloridas com arcos suor e feiras

rulotes com pipocas: mil maneiras
de beber e alegrar os visitantes
de esquecer as agruras de ontem. antes
sanjoanizar a vida erguer bandeiras

de cada rua bairro ou freguesia
pra não viver sempre dessa maneira
frequentemente pobre e apagada.

mude-se então a vida: uma golada
de vinho ou de cerveja: bebedeira.
(mas não se muda já como soía.)

Affonso Gallo
(Junho 2003)
http://affonsogallo.blogspot.com/

quinta-feira, junho 12, 2008

Quadras ao gosto popular, que fez o poeta nefelibata Affonso Gallo, por ocasiam dos Santos Populares, e a propósito do Campeonato Europeu de Futebol

no anno da graça de dois mil e quatro, em Almada, mas olhando para Lixboa, capital do império, cidade onde se realizaria a malfadada final da mencionada competição, de mui má memória (a final, não a competição)

Neste reino de durões
É preciso é futebol.
Perder? Mas nem a feijões:
Não somos um povo mol'

Onze gajos e uma bola
E toc'á chutá-la a eito.
Se no fim cantam vitória
Fica o País satisfeito

Vamos lá dar-lhes um baile
Vamos lá comer a relva.
Chega de tanto desaire:
Não somos bichos da selva!


Affonso Gallo


Mais poemas deste autor em:


terça-feira, março 06, 2007

De um leitor do Bulcão, depois de ver quase toda a colecção, indignação. Ditada ao provedor Abreu Santinho e aqui reproduzida em forma de soneto por esse talentoso rapaz chamado Affonso Gallo


verteu dziga vertov algum poema
que justifique esta tão agridoce
capa do bulcão número catorze?
e os direitos de autor? querem celeuma?

não acham que isso pode dar problema
já que não foi o autor que vos trouxe
o boneco? cuidado ou levam coice
dos autorais guardiões do fonema

e também da imagem. cuidadinho!
olhem que quem avisa é vosso amigo
e tem o seu trabalho a sete chaves

de olhares intrusos mui bem guardadinho.
(havia outras coisas mas não digo:
não serei eu quem vos vai pôr entraves.)


de um leitor atento e anónimo, transcrito por
Affonso Gallo

Nota do provedor, Dr. Abreu Santinho:
Ouça lá, ó leitor: a capa a que V. Excelência se refere foi composta por Luísa Trindade em 2001, quando ela ainda morava em Almada. Agora, a gaja emigrou para Inglaterra e não me deixou endereço nem outro qualquer contacto. Portanto, Excelentíssimo Senhor, não lhe posso dar mais informação sobre a elaboração e/ou o conteúdo dessa capa, até porque os meus conhecimentos de russo não são assim tão bons quanto paressem ser seus. Quanto aos direitos de auctor, não estou para me xatear com isso. Aliás, estou farto de aturar gente parva, e só não o mando à merda porque o António Victorino me aconselhou a não o fazer, uma vez que isso me poderia trazer desagradáveis consequências jurídicas, diz ele. Tenho dito!

Nota do editor: desculpem lá, mas eu agora estou demasiadamente ocupado para editar os comentários do nosso venerável provedor.

Informação adicional sobre Dziga Vertov:
www.geocities.com/contracampo/dzigavertov.html
documental.kinoki.org/dzigavertov.htm
www.ufba.br/~revistao/01ideogr.html
revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1013691-1655,00.html

Quase toda a colecção do Bulcão em:
entertainment.webshots.com/album/555724059dmGroA

terça-feira, dezembro 12, 2006

Edição de Autor

a módica quantia de cem euros
serviu-me para muitas fotocópias
depois de alinhavar rimas metódicas
enfeudadas cada qual em seus feudos.

mas este ofício complica-me os nervos
pois eu só sei rimar a gajas nórdicas
que aos berros me sussurram coisas óbvias
tais como na irlanda há muitos trevos.

assim é mais difícil ser poeta
é mais arreliante dar-me às musas
que fogem todas por esta ampulheta

das dores palpitadas e infusas
viscosas como sémen na proveta
mas sempre me acrescento às letras lusas.


Affonso Gallo
(Debaixo do Bulcão 28, Dezembro 2006)

debaixodobulcao@netcabo.pt