Deixa-me ficar na minha redoma de vidro
onde anseio a eternidade fatal!
Vou disputar com Vénus motivos efémeros
para conquistar o verde e não por mal
juramos ser eternos
para o mútuo agrado que talvez partilhemos!
E em troca? Ofereces-me o silêncio
Eu nunca esperei menos!
Desenho-te com a luz da minha super 8
Face pálida e amarga
Carrego frames com esperança
De te ouvir uma palavra!
Mas esta cena nem tem diálogos!
Se os tivesse seriam censurados!
Eu mesma os teria cortado!
Porque a beleza mais pura
Não precisa de descrição
que interessa o motivo e a obra
se ele se eleva ao guião?
Seria a película mais bem gasta,
um plano longo que não acaba
Fechado na sua cara
Só suspira com a tensão.
Ele olha directo para a câmara
como quem desaprova.
Não quer ser arte,
A palavra incomoda!
Sílvia Cunha
Debaixo do Bulcão poezine
nº41 - março 2013
domingo, março 24, 2013
Incógnita visita
E no fim
A armadilha atrai-nos
Entre luzes e sombras
Em direção às chamas
E no fim
Incógnita visita
Mundo com pressa de chegar à ruína
Volupias de carnificina
E no fim
Livre de toda a dor
Friamente iluminado
Seguras a lâmina de uma flor
Lino Átila
Debaixo do Bulcão poezine
nº41 - março 2013
(Ilustração: desenho de Sturrefsit Adjukaatrix)
segunda-feira, março 18, 2013
domingo, fevereiro 17, 2013
Próxima edição: Março de 2013
O Debaixo do Bulcão vai ter nova edição em papel, a sair no Dia Mundial da Poesia, 21 de Março de 2013.
Enviem-nos as vossas colaborações (poesia ou prosa, com a extensão máxima de 1 página em formato A4) até 10 de Março
para
debaixodobulcao@gmail.com
debaixodobulcao@gmail.com
quarta-feira, março 07, 2012
Como sabes
"Tímido como uma criança. Sou ignorante"
"O inverossímil em matéria de sentimentos é o sinal mais seguro da verdade."
(Liev Tolstói).
Ao relevo submisso do espelho admitiu sem negações outra de si. Sem expressão de noções ou julgamentos. Sem mágoas ou amarguras, isenta de culpa por talvez destroçar-lhes quaisquer ressentimentos. Alegrou a tristeza no segmento de um objetivo ou de um objeto para tudo o que suportava. Intrometeram-se luminescências que se fecharam abertamente nos florescimentos vindos de fora. E persistiam em diversos murmúrios. Como os dias iguais a todos os dias que ainda submergiam numa loucura feliz. Um acesso exterior e nada para partilhar, apesar do convite – o temor é perdedor assíduo da indiferença – a pior forma de amor que há.
A malha da insônia seria o anzol fosforescente do corpo indefeso. Perto dali morava um cedro cinqüentenário, um canto de corruíra, uma cerejeira onde alguém, com muito zelo, reservara sementes para lhe dar.
Afagou-lhe as pálpebras, os anéis dos cabelos, a face, as formas de pérola.
No seu abraço permitiu-lhe o abandono seguro de quem se sente amado.
Incondicionalmente. O quarto sempre à sua espera, o quadro de tulipas pousando
no coração azulado entre as paredes claras, o ensejo rosado a esperar-lhe o gosto singular, lençóis de algodão perfumados de maciez maternal. Uma ingênua liberdade toldava-lhe a tristeza adormecendo para reconfortar-se no amanhã, com um sorriso corajosamente inesquecível. Sobre uma luz difusa entre singelezas de fogo repetiu como uma canoa flutuante o langor que se perdera numa erva antiga, a cantiga que previa inteira e só por aquela noite a procurara como se soubesse não tê-la. “O inesquecível é o amor que sobra. Para algumas, e só para algumas coisas, que são para sempre.”
Aqueles olhos eram loucos e surdos. E eram também aqueles ouvidos com olhos. Porque há ouvidos cegos e fragores inaudíveis com olhares: E olhos mudos e lábios olhando as profusões invisíveis ao tato. O paladar pênsil do gesto sem lábios. Olhar sápido de olivas. E oliveiras repletas de retinas tocando o sol com brumas, com mãos de vinho... “que misteriosos olfatos escondeis além de vós? Precisarei de todos os sentidos ao mesmo tempo.” Ouviu um perfume qualquer que seu coração reconheceu, tocou-o de forma irreversível na escuridão, na proximidade ausente do momento que a prendia até que surgissem os delineamentos de consciência e subconsciência, o desconhecido perguntando se poderia resumir-se. Não com uma resposta qualquer. Tampouco com o retrocesso.
Sobrava-lhe o nada para expressar o mínimo, e não expor estranhamentos a caberem uns dentro dos outros – primaveras com floradas de gelo, verões sendo outonos mornos, invernos de calor a nevar no tropeço das nuvens. As oliveiras misturadas aos sândalos e madressilvas. Flores de laranjeira deslizando pelo tempo, entre as asas dos melros... um mero truque da imaginação, a memória talvez nem sua que se seguia por séculos.
E desse olfato surdo vê a completude indefinida em fractais. Nem tão abstratos assim, a imaginação do gosto lhe saliva a boca. “Não se lembrem de Pavlov. Houve uma vez em que me dei sais. Depois açúcares. Não há nada ou ...talvez alguma coisa aja fora de mim. Vejo novamente quando ouço e novamente toco quando olho. Outra vez me ouço quando degusto. E novamente me alimento quando tudo se mistura nesse inesgotável recurso de meia-estação.”
Multiplicou-se com rebeldia e graça por todas as frações da luz – no colo do ar e do tempo, como as areias juvenis... fecundando-se indefinidamente em oceanos pautados por um eco outro, do outro lado. O lado de dentro.
Tere Tavares
Texto publicado em
Debaixo do Bulcão poezine nº 40
Almada dezembro de 2011
Imagem: pintura de Tere Tavares em
http://m-eusoutros.blogspot.com/
(reproduzido com o consentimento da autora)
domingo, janeiro 22, 2012

O tempo passa.
A mão reescreve o sentimento de outras mãos num papel amarrotado. O teu olhar solidifica o vazio da minha visão e o meu corpo treme um pouco. Um olhar assim torna-se mecanismo de desilusão.
Como eu gostava ainda de saber escrever-te, o real é como uma máscara e sinto que perdi anos sem fim a preparar uma vida aqui e ali interrompida pela distância.
Acho que cheguei aquele ponto em que desistir ou continuar são o mesmo precepício onde todos os desejos se tornam realidade...
E então a queda.
Vigio ilhas separadas onde habitamos com o riso abafado num murmúrio perdido no espaço. Um mundo existe ainda neste riso vazio de sentimento e evoca uma dança.
Dançaremos talvez um dia no espaço da minha morte. Os gestos desses movimentos mostrar-se-ão com toda a inocência para provocar o desassossego.
Fogem-me as palavras dos bonitos poemas mas a culpa é do sol que ilumina o caminho e assim sei de cór o que me espera no fim.
Porém o tempo passa e tudo se esquece e não foi só por acaso que hoje não falei nenhuma vez da palavra amor.
Sem data,
Vang
Debaixo do Bulcão poezine nº40
Almada, dezembro 2011
crónicas do mundo - a linha do tempo
há quem diga que os dias são todos iguais. talvez num determinado momento assim pareça. quando o sonho anda escondido e a vida se limita ao círculo da rotina dos dias quotidianos. mas não são. nunca foram.
há o dia em que nos pomos de pé. e andamos. e começamos a olhar o mundo olhos nos olhos. o dia em que deixamos de ter sorrisos inocentes. e somos o centro do mundo. do pequeno mundo que é sempre o que nos rodeia. o dia do primeiro dente. do primeiro banho, isolados. em que somos um direito próprio. o dia do primeiro arrufo. da birra dos sentimentos. que rapidamente se instalam e nos tornam diferentes dos outros animais. somos mais perigosos.
o dia dos primeiros passos rumo à escola. na descoberta de outros amigos. outras brincadeiras. o dia do primeiro exame. do nervoso miudinho. da insegurança. do primeiro beijo. que demorou não mais de três segundos, mas que nunca mais acaba. e que por ser o primeiro será sempre o mais perfeito. o dia dos primeiros jogos às escondidas. das corridas atrás das raparigas. da primeira ida ao cinema, ao teatro. da primeira saída. do primeiro pecado. num qualquer canto.
o dia em nos começam a crescer pêlos, onde antes tudo era liso. o dia em que achamos que somos homens quando passamos a fazer a barba. e não queremos. do primeiro concerto. da primeira entrevista de emprego. da descoberta de que afinal não somos todos iguais. e que há uns mais iguais que outros. da primeira namorada. da primeira mulher. o dia em que escrevemos cartas de amor. e as recebemos. depois em que apenas as recebemos ou as escrevemos. e o dia em que nem uma coisa nem outra.
o dia do primeiro filho. o dia em que somos tios e mais tarde avós. e repetimos novamente todos os rituais. o dia do primeiro cabelo branco. da primeira ruga. o dia em que os pêlos vão caindo. e o dia em que são outros que cuidam de nós. tal e qual, como quando éramos crianças. esses, são os dias em que já pouco importa. a não ser se seremos pó ou cinza.
e depois há os dias assim, como hoje. em que falamos dos dias do futuro. que são já passado. porque afinal o presente, não existe. é apenas uma linha imaginária do tempo.
almada, in crónicas do mundo, agosto/2011
a faustino
Debaixo do Bulcão poezine nº40
Almada, dezembro 2011
há o dia em que nos pomos de pé. e andamos. e começamos a olhar o mundo olhos nos olhos. o dia em que deixamos de ter sorrisos inocentes. e somos o centro do mundo. do pequeno mundo que é sempre o que nos rodeia. o dia do primeiro dente. do primeiro banho, isolados. em que somos um direito próprio. o dia do primeiro arrufo. da birra dos sentimentos. que rapidamente se instalam e nos tornam diferentes dos outros animais. somos mais perigosos.
o dia dos primeiros passos rumo à escola. na descoberta de outros amigos. outras brincadeiras. o dia do primeiro exame. do nervoso miudinho. da insegurança. do primeiro beijo. que demorou não mais de três segundos, mas que nunca mais acaba. e que por ser o primeiro será sempre o mais perfeito. o dia dos primeiros jogos às escondidas. das corridas atrás das raparigas. da primeira ida ao cinema, ao teatro. da primeira saída. do primeiro pecado. num qualquer canto.
o dia em nos começam a crescer pêlos, onde antes tudo era liso. o dia em que achamos que somos homens quando passamos a fazer a barba. e não queremos. do primeiro concerto. da primeira entrevista de emprego. da descoberta de que afinal não somos todos iguais. e que há uns mais iguais que outros. da primeira namorada. da primeira mulher. o dia em que escrevemos cartas de amor. e as recebemos. depois em que apenas as recebemos ou as escrevemos. e o dia em que nem uma coisa nem outra.
o dia do primeiro filho. o dia em que somos tios e mais tarde avós. e repetimos novamente todos os rituais. o dia do primeiro cabelo branco. da primeira ruga. o dia em que os pêlos vão caindo. e o dia em que são outros que cuidam de nós. tal e qual, como quando éramos crianças. esses, são os dias em que já pouco importa. a não ser se seremos pó ou cinza.
e depois há os dias assim, como hoje. em que falamos dos dias do futuro. que são já passado. porque afinal o presente, não existe. é apenas uma linha imaginária do tempo.
almada, in crónicas do mundo, agosto/2011
a faustino
Debaixo do Bulcão poezine nº40
Almada, dezembro 2011
sexta-feira, janeiro 06, 2012
Sem título

O piano impõe a sua mudez
desafinada
enquanto as horas atropelam,
em serenos sussurros,
a impavidez do corpo.
O teto afunda-se
sob a pele,
aconchegando a dor
em suaves volúpias.
Papel de embrulho
para ruínas biológicas.
Num aceno de coisa nenhuma,
retro escavo até ao osso
em busca da toupeira
que me come a vontade.
Mas logo me canso
e deixo-me ficar a
assistir ao banquete.
F.S. Hill
novembro 2011
Debaixo do Bulcão poezine nº40
Almada, dezembro 2011
O MELHOR AMIGO

Olho-te com carinho
Afago a tua alma
Sinto o cheiro do teu corpo…
Acaricio-te ao de leve
Tatuo o meu sentir na tua pele
Vejo-me nas tuas linhas…
Afasto a solidão
Sonho com o infinito
Encontro a felicidade…
Perco a noção do tempo
Partilho as tuas lembranças
Navego num mar de recordações…
Sinto-me livre só de te olhar
Mais segura e confiante
Aqui ou em qualquer lugar…
Estás sempre a meu lado
Ouves-me com atenção
Sem ti não sei viver…
És o meu melhor amigo
Aquele que nunca me abandona
Em quem posso sempre confiar…
LIVRO é o teu nome
Que pronuncio com prazer
E a quem amarei até morrer.
Minda
Debaixo do Bulcão poezine nº40
Almada, dezembro 2011
quarta-feira, dezembro 28, 2011

Falta pouco até que todas as capitais se juntem numa só marcha
Pelo Respeito e pela Verdade! O nosso conhecimento já é demais,
Vemos pelos satélites quanto custou o que vocês deitam fora
Que nós poderíamos provar de bom grado, e saborear juntos, se
Nao tivéssemos de nos agarrar ao emprego de que não gostamos!
Mas não somos preguiçosos nem nunca seremos mentirosos!
Podem ficar com vossos iates e vossos aquários em quarentena
Longe da presença de pessoas normais cujas mãos vos dão,
Indirectamente, de comer, enquanto lá especulam nós festejamos
Com o emocionalmente necessário de que precisamos para ser felizes!
Já vos demos décadas de chances para sairem desse buraco negro
Porque sabemos tudo que sempre se tem passado, mas parecem não
Querer ouvir que estão errados e existe honestidade neste mundo
Que usa o coração como arma para defender a imortal alma humana,
Em vez da vossa infantil ganância presunçosa dum estatuto já podre!
Não existem ofertas à vista, só promoções para enganar ceguinhos
Que lá se deixam escravizar esperando as proximas eleições – Eles
Até do lixo dos supermercados nos fecham à chave, com lixívia ou
Vidros espalhados como presente de Natal para enregelares sem
Telhado onde chorar as misérias que o despedimento te faz passar!
Foi já há muito esquecido o que diziam que tinhas tanto jeito para fazer,
Tiveste de crescer, trabalhar para ajudar a família, sacrificar talento
Pela elite que os economistas alimentam como se fosse direito feudal,
Trocar neo-liberalismo por ética pessoal e ver-se consumido pelo bicho
Acumulativo, dinheiro-dependente, mandando outro milhão para a veia!
Nós culpamos o sistema como se este nao fosse comandado por pessoas
Que se maltratam e se burlam pelas hipócritas costas mal querem e podem,
Cobaias dentro do mesmo obscuro jogo egoísta por lucro e mais-valia,
Brincando com o escalpe das nações e as reformas dos nossos pais por
Algum orgulho obtuso de ser o perverso que quer sempre ficar por cima!
Fui e voltei das compras, está tudo mais caro e todos perguntam porque?
A lei dos politicos é devota aos bancos que definem a mesada dos paises!
Queria sonhar com bombas que matem só aqueles que não sabem partilhar
Porque nunca precisaram, era o mordomo que ia às reuniões da escola,
Nunca conheceram a visão de uma migalha de pão servir de refeição…
…mas conhecerão! Já que nada faz sentido e o ouro foi trocado por papel,
Quero que roubem, que se manifestem, que recusem cada injustiça diária
Tal como a militarização da vossa liberdade imbuída na iliteracia da polícia
Que em vez de proteger, persegue, e em vez de servir, manipula e decide!
O amor da maioria já cintila por revolução, independência e bom senso!
Basta de gozarem e escarrarem nas esperanças dos que vos fazem ricos,
Ouço os passos mortiferos do cadafalso aproximarem-se silenciosamente
E imparáveis por serem protegidos pela Razão e guiados pela Vingança!
Joao Meirinhos
Outubro 2011
Tallinn
Debaixo do Bulcão poezine nº 40
Almada, dezembro 2011
(Imagem: foto de Walker Pickering encontrada em http://estherbarend.blogspot.com/)
segunda-feira, dezembro 26, 2011
tempo programado
como um galo mecânico
o relógio dispara
desperta a manhã
no melhor do sono
dispara de susto
o coração
que
feliz-
mente
não parou
circulando a vida
espreguiça a mente
na rotina batida
que o dia carrega consigo
de segunda a domingo
de janeiro a dezembro
até a ferrugem das cordas
roubar-lhe o canto
sidnei olivio
Debaixo do Bulcão poezine nº 40
Almada, dezembro 2011
quinta-feira, novembro 10, 2011
TEMPO e RESISTÊNCIA - nova edição em dezembro, para comemorar 15 anos!

O Debaixo do Bulcão poezine convida-vos a participar na próxima edição.
É a número 40.
E é muito especial, pois serve também para comemorar os 15 anos deste projeto editorial (tão antigo que quando foi concebido, em Dezembro de 1996, ainda se escrevia projecto!).
Falando sério: enviem-nos colaborações, até 20 de novembro, em poesia ou prosa, e utilizando o português pós ou pré acordo ortográfico, conforme vos der mais jeito.
Conforme sugerido no título deste "post", a edição tem - pela primeira vez - temas propostos para vos inspirar: o tempo (15 anos é muito tempo?) e resistência (porque esta é uma publicação que resiste a adversidades, contratempos e modas).
Mas são apenas sugestões. A vossa criatividade é sempre bem vinda, mesmo que abordem outros temas.
O endereço de correio eletrónico para onde devem enviar os vossos textos é o de sempre:
debaixodobulcao@netcabo.pt
A imagem que ilustra este artigo é já a primeira versão do que há-de ser a capa. "Chronos", desenho de Paulo Buchinho - também ele um "velho" amigo e colega de fanzines desde os anos 80 - feito de propósito para esta edição.
Aguardamos as vossas colaborações para comemorarmos juntos esta data tão especial!
sábado, outubro 15, 2011
No centenário do nascimento de Manuel da Fonseca
Leitura por Licínia Quitério,
no canal http://www.youtube.com/user/oimgata
"Escritor português, vulto destacado do Neorrealismo, nasceu a 15 de outubro de 1911, em Santiago do Cacém, e morreu a 11 de março de 1993, em Lisboa.
Partiu ainda jovem para Lisboa para realizar estudos secundários, tendo desempenhado posteriormente na capital diversas atividades profissionais no comércio, na indústria e no jornalismo. Antes de colaborar em Novo Cancioneiro, com Planície, coleção onde se afirmariam algumas coordenadas da estética poética
Neorrealista numa primeira fase, editou, em 1940, Rosa dos Ventos, obra pioneira do neorrealismo poético português, nascida do convívio com um grupo de jovens escritores, entre os quais Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes e Armindo Rodrigues, unidos numa "obstinada recusa de ser feliz num mundo agressivamente infeliz, uma ânsia de dádiva total e o grande sonho de criar uma literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do Homem, ela teria um papel estimável a desempenhar contra o egoísmo, os interesses mesquinhos, a conivência, a indiferença perante o crime, a glorificação de um mundo podre" (DIONÍSIO, Mário - prefácio a Obra Poética de Manuel da Fonseca, 1984, p. 21).
Não existindo descontinuidade entre a poesia e a prosa de Manuel da Fonseca, nem entre ambas e o escritor, que as impregna de um cariz autobiográfico, alimentado por recordações da convivência com o homem alentejano, ficção e obra poética interpenetram-se na evocação de personagens, narrativas, romances, paisagens alentejanas. Mário Dionísio (id. pp. 32-33) vê na oposição cidade/vila, recorrente na obra de Manuel da Fonseca, a oposição entre o que é "apaixonado e violento, desgraçado e heroico, profundamente humano, grave, limpo" e o que é ridículo, repugnante, mesquinho, "de ambição medíocre, de preconceitos míseros, que desvirtuam e lentamente asfixiam uma imagem ideal de vida que, na poesia de Manuel da Fonseca, quase sempre se identifica com tudo o que a infância e a adolescência têm de ingénuo e generoso e transparente e que a vida embacia, adultera e destrói."
Autor de uma obra ancorada na realidade e eivada de um apontado regionalismo, a escrita de Manuel da Fonseca ultrapassa a contingência histórica de que nasceu, por um enaltecimento da vida, compreendida como intrinsecamente livre das imposições, frustrações, mentiras e condicionamentos impostos pela sociedade, ânsia de libertação, simbolizada, por exemplo, na repressão sexual imposta a algumas figuras femininas ou na admiração de figuras marginais como o "maltês" ou o vagabundo. Cerromaior (1943), O Fogo e as Cinzas (1951) e Seara de Vento (1958) são algumas das suas obras mais emblemáticas."
Bibliografia: Rosa dos Ventos, Lisboa, 1940; Planície, Coimbra, 1941; Aldeia Nova, Lisboa, 1942; Cerromaior, Lisboa, 1943; O Fogo e as Cinzas, Lisboa, 1951; Seara de Vento, Lisboa, 1958; Poemas Completos, Lisboa, 1958 (inclui obras anteriores e poemas inéditos, Lisboa, 1969); Um Anjo no Trapézio, Lisboa, 1968; Tempo de Solidão, Lisboa, 1969; Obra Poética, Lisboa, 1984; Crónicas Algarvias, Lisboa, 1986; Bairro de Lata, Lisboa, 1986
fonte: Infopédia
http://www.infopedia.pt/$manuel-da-fonseca
Manuel da Fonseca (e Fernando Miguel Bernardes) em sessão de autógrafos durante a Semana do Livro de 1987, realizada na antiga Oficina da Cultura de Almada.
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