segunda-feira, outubro 11, 2010

Anjos, Lx



caras
línguas que não conheço
só reconheço os olhares
que são universais
alguns cheiros mas nem todos
alguns são demasiado internacionais

um homem cambaleia
tropeçando na sua vida e na sua morte
à sua sorte

duas cores
trocam palavras
trocam favores
experimentam-se sabores

aqui
eu não sou ninguém
sou uma raça
sou uma branca
alguém
todos andam agrupados
pouco misturados

quando se juntam
é para trocar
comprar
vender
estas três coisas
estão sempre a acontecer
do amanhecer
ao anoitecer
numa loja
numa esquina
uma troca tem de ocorrer
numa zona de vício
de miséria
o dia não acaba
o corpo não acalma
há uma sede de abandono
ao que nos deixa
completos e dormentes
mesmo que cada vez mais
incompletos e infelizes

o meu cérebro paira
entre a palavra e a cor

como um trovador
canto
e conto
estas histórias que vejo
nesta vida que tenho percorrido

guardo frases
que não serão repetidas



Carolina Rodrigues

Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

sábado, outubro 09, 2010

Uma homenagem a John Lennon (9 outubro 1940 - 8 dezembro 1980)

"A Day in The Life", um dos grandes poemas que Lennon compôs para os Beatles.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Superação



Cerrou-se o portal
Com uma pálida luz
Pensamento mortal
Minha sina, minha cruz.

Na cegueira repentina
Da pupila solitária
Sem lume na retina
Negligente luminária.

Embaraçou o nervo secreto
Sem ilusão de ótica
Da luz, um furto discreto
Na ação caótica.

No reflexo cambiante
Eis uma cena difusa
No meu passo hesitante
Muito mais confusa.

Como cruel navalha
Dilacerou minha segurança
Ergueu-se uma muralha
Dissipou minha esperança.

Sem estímulo luminoso
Orei por um indulto
E o pedido silencioso
Não quero apenas um vulto.

Cintilantes lantejoulas
Já avisto sem luneta
Sem o ópio das papoulas
Exalto a cura em opreta.


Mônica Quinderé



Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(Paginação de André Antunes)

segunda-feira, outubro 04, 2010

O medo


Noite de jangadas e de medos
Tempo que resta para encontros
Enquanto o silêncio se apodera
Do que inventamos nos jornais

Como se o tempo da outra senhora
Voltasse tranquilamente alienando
As memórias de já não sentirmos nada
Do que nos cala... e vamos consentindo

Mas nada nos calará a revolta
Que trazemos nas palavras
Nem somos acomodados do deixa andar
E sabemos... quem nos empurra para o abismo

Victor Serra
24-11-2009


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(Ilustração de André Antunes)

domingo, outubro 03, 2010

Construção


Esculpi
na pedra bruta,
o meu sentir e a minha alma.
Por entre as colunas do templo,
voam os meus afectos e sentimentos.

Lentamente, mas segura da razão
a obra nasce em consciência...

Caminho de olhos bem abertos,
a obra nasce em consciência...

Caminho de olhos bem abertos,
apoiado um bordão de acácia
em direcção ao Supremo.
De cabeça erguida,
enfrento ventos e silêncios.

Tudo é perfeito...
o aroma das rosas aguça-me.
No céu, entre astros
realça a estrela d'Alva.

A essência e o profano
transporta o astro-rei.
A obra floresce, a pedra está polida.


Artur Vaz


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

quarta-feira, setembro 29, 2010

Quase num outro país qualquer



Há muito tempo que ele tanto estranha a bondade como a maldade humana.
Foi por isso que escolheu viver num dos bairros mais feios e pobres da cidade.
Ali sabe que não é invejado nem bajulado por ninguém, nem tão pouco olhado de lado. É um indiferente, um quase invisível, como todos os outros habitantes, pretos, brancos, castanhos ou cor de rosa.

Passa a vida a pintar, porque é o que melhor faz e também o que mais o satiasfaz.
Tem compradores certas das suas aguarelas sobre Lisboa, de Alfama à Lapa. Os óleos - sem procura - enchem as paredes e apenas são conhecidos pelos raros amigos. Também pinta interiores de casas, quando os bolsos estão mais vazios e o empresário João Pintor precisa de reforços.

Achou estranho os aviões voarem tão baixo a meio da manhã, foi por isso que veio à janela. Não se assustou, como a senhora que descobriu imóvel no meio do passeio. Além de suar, tinha um ar assustado, como se pensasse que estava a rebentar uma guerra qualquer por aí.
Não achou piada ao medo da mulher idosa, muito menos ao barulho dos jactos, que conseguiram estremecer o cavalete e borrar ligeiramente a aguarela que estava a pintar.

Só à hora do almoço, quando passou pelo café, percebeu a "guerra" que se travava na Capital. Ao olhar de soslaio para a televisão, descobriu que o papa andava por aí, a fazer milagres.

O café estava mais cheio que o costume, para um dia da semana. Foi então que ouviu dizer que era feriado em Lisboa, graças ao tal rei dos católicos, que aparecia no filme com o presidente, mais angelical do que nunca.

Numa outra mesa, mais dada aos futebóis, os vizinhos preferiam o futebol à missa. Colocavam um tal Queirós no assador, enquanto faziam futurologia escura sobre o campeonato do mundo na terra do "Chaka Zulu". Não ganhavam um jogo. Queriam um tal Quim, um João Moutinho, um Martins, um Ruben qualquer coisa, um Makukula e ainda um Scolari na selecção. Rendeu-se ainda mais à sua ignorância, não sabia que havia portugueses com estes dois últimos nomes...

Antes de pagar o café, sorriu de felicidade por raramente ver televisão, ler jornais ou ouvir telefonia. A sua companhia continuava a ser o velho gira-discos e a música psicadélica dos anos sessenta e setenta.

Virou as costas ao filme de 12 de Maio e lá foi, para a sua casita, quase num outro país qualquer...


Luís Milheiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(Ilustração: desenho de André Antunes)

terça-feira, setembro 28, 2010


Citadino selvagem decidiu queimar
Todas as suas cartas
Enredadas em eufemismos de si:
Castas articulações de pós piedade que,
Após terem esganado muitos doutos flamingos,
Dá-vos destas
Ofegantes tremuras dentro da distância
Entre bruxas e arcanjos
- oh criaturas de labor descalço
viajando na fantasia mas sempre
com o coveiro às cavalitas -
sejam sabedoria de despropósito literário
nesta batedeira part-time sobre dádivas
- concessionário de comissuras
jamais premeditadas -
verga gaga e gabarolas;
chagas derrapadas à deriva
na parceria da polpa dum
alento morno e aconchegante;
com os lençóis todos descompostos como combinado
pela morbidez de tantos bocados de beijos
imbecilmente inertes
- retalhos de recordações -
no abismo da juventude
outrora viciosa,
outrora moribunda,
outrora dum limão sentimental e repugnante;
como singelo tumor cor de autópsia
- peripécias do desenrasca
a anis, cobalto e crude
quando dois corpos feitos mundo
decidem diluir-se nesta história.


Salmonela Pintassilgo


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(Ilustração de André Antunes)

domingo, setembro 26, 2010

Obsessão


dias perdidos em volta do que não volta
dias perdidos em volta do que se perdeu
porque se devia perder
porque doía e não devia
doía como uma fractura
sem tratamento
sem cuidado
e mesmo assim
esperava-se
e mesmo assim
chorava-se
quando se vai perdendo o rumo
o norte
a vontade
até a maior mentira
parece verdade


Carolina Rodrigues


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(grafismo de André Antunes)

Até já


De volta à esfera redonda, sento-me no chão
Nunca me dei bem com cadeiras.
São construções de vaidade e ostentação, perturbadores da realidade
Aqui no chão, posso estender-me sem a preocupação de cair
Aqui no chão, olho o céu e água
Aqui no chão, contrario a hereditária ceifeira
Aqui no chão, mastigo cereais sem leite
Aqui no chão, as expectativas são baixas mas a esperança é realmente verde
Aqui no chão, as pedras falam e as formigas folgam
Aqui no chão, a única agressão é provocada pela espera de um eclipse
Aqui no chão, as ideias não têm seguimento e os pensamentos confundem-se com nuvens
Daqui do chão, consigo ver-te e tocar o teu reflexo
Daqui do chão, a tua bandolete é amarela
Daqui do chão, ouço o teu sorriso
Daqui do chão, digo-te até já
É aqui no chão que vou esperar.
Daqui do chão, vou morrendo vivendo

Obrigado, são só devaneios
Não sei escrever, mas já sinto como gente grande


Tiago Espírito Santo


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

O Infinito


Dentro do encanto das palavras
E do vento que rasga o nevoeiro
Encontro as velas dum veleiro
Desfraldadas numa bandeira
Com sonhos e utopias de poetas
E loucos de jaulas desenhadas
Para lá do horizonte entre as nuvens
Escondemos percursos de marés
E descobrimos o infinito do destino

Para onde nos levam as mãos da vida
Os cacos das conchas dos nossos búzios
Os corpos desnudados dos desejos
E a chama que apagamos todos os dias

Somos restos raros de percursos e silêncios
Fomos mortos que não se deixam liquidar
25 maneiras de sermos marionetes
Com tudo o que se cala na magia do fantástico
Só nos resta os náufragos da nossa história
E o vento que não leva o pensamento
E nos deita na memória

E nos corpos nus de todos os encontros


Victor Serra
27/1/2009


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(grafismo de André Antunes)

domingo, agosto 15, 2010

FOGO POSTO


I

Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal porque as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo ou quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.


II

O aeroplano da lista vermelha é que semeia o fogo.

Von Richthofen - passe-montanha, óculos «à aviador», dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.

Abatido em 18, ressurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.

Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhes uns fogos que se vejam!

Polegar para baixo, Von Richthofen
incendiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.

Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.

Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?

Credo, custa-me a crê-lo!



Alexandre O'Neill

As Horas Já de Números Vestidas (1981)
em Poesias Completas
ed. Assírio e Alvim, Lisboa, Novembro 2000

domingo, agosto 08, 2010

António Vitorino / PLU!



Confissão de um intelectual de esquerda
Texto de António Vitorino, desenho de PLU!
Em GAMBUZINE 2

sexta-feira, agosto 06, 2010

Catarina Henriques / Fruzzi


Poema de Catarina Henriques
(publicado anteriormente no poezine 24),
desenho de Fruzzi.

Em GAMBUZINE 2

terça-feira, agosto 03, 2010

Edição 38 adiada para Setembro!


A edição 38 do Debaixo do Bulcão poezine estava agendada para Julho. Contudo, dificuldades várias obrigaam-nos a adiá-la para Setembro próximo. Aos nossos colaboradores e leitores pedimos desculpa pelo atraso. Em compensação, divulgamos já a capa desse próximo número: desenho de André Antunes, responsável pela coordenação gráfica da edição.

quarta-feira, julho 21, 2010

ALEXANDRE HERCULANO – 200 ANOS APÓS O SEU NASCIMENTO



Passados dois séculos após o nascimento de Alexandre Herculano, é de facto uma grande lacuna não ter sido organizada nenhuma iniciativa à efeméride no âmbito nacional e oficial.

Surpreendente? Nem por isso. Em ano de centenário da implantação da república, dificilmente não sobraria ao Estado dinheiro e ideias para homenagear um homem que foi “apenas” um dos nossos mais elevados vultos e um combatente – em palavras e em armas – pela liberdade, pelo progresso, e pela corporização do civismo e da ética numa época.

Além de ser um grande historiador, Herculano fez poesia, teatro, romance, e ensaios. Atento ao seu tempo, foi também um acérrimo combatente pela liberdade. Denunciou as misérias e a corrupção. Foi um liberal sempre coerente e corajoso, com uma dimensão ética rara no seu tempo (século XIX).

Enquanto intelectual foi o portador dessa mudança, envolvendo-se na educação das novas gerações em instituições filantrópicas e em sociedades filomáticas, visando uma valiosa transmissão de saberes, sedimentando a mentalidade dos jovens para o novo ideal liberal, constitucional e democrático, em profunda contradição com a sociedade burguesa, que sufragava os mais desprotegidos.

E é aqui precisamente que pode estar a causa do desinteresse por este centenário por parte de quem tem a responsabilidade de gerir a nossa Cultura, pois a sua amnésia, coloca na penumbra do esquecimento figuras tão importantes da nossa memória colectiva e ícones de nossa identidade.

Toda a sua vida foi marcada por lutas políticas e pela reconstrução literária da história de Portugal. Alexandre Herculano foi dos mais importantes e notáveis escribas do nosso panorama literário. A sua escrita é envolvente de um cunho romântico e que se esteira desde a poesia, ao drama, à novela e ao romance.

É justo que se reconheça que foi um dos grandes escritores da sua geração, desenvolvendo o romantismo por excelência e a incompatibilidade do indivíduo com o meio social que o rodeia – ou seja alguém que se singularizou como um português de horizontes largos, um historiador probo e moderno, fiel às provas e à ciência, fundador da historiografia contemporânea, um cidadão comprometido à causa liberal e exemplar.

Escritor de perfil clássico, foi dos mais dotados no manejo da língua e uma enorme figura moral – homem de um só parecer; de um só rosto; de uma só fé; de antes quebrar que torcer.
Em suma, Alexandre Herculano é um símbolo forte do seu tempo. Uma vida dedicada à causa pública numa sociedade em permanente mudança, com todas as consequências sociais e pessoais que daí pudessem advir.

Digamos que o escritor sempre se manteve fiel ao seu espírito; o da procura de uma síntese fecunda entre a tradição e a modernidade, com um empenhamento intenso pela reforma do país, de modo a combater o atraso e todas as formas de intolerância.

É importante que à falta de valores que afecta a nossa sociedade, se ponha fim a um notório silêncio propositado – a todos os níveis – e que sejam divulgados às gerações vindouras a sua rara e ímpar consistência moral.

Alexandre Herculano e outros escritores têm sido tratados de um modo injusto o que certamente não aconteceria num país civilizado, onde os homens do passado são referência primordial para a construção de um futuro.

A ausência de importantes autores do nosso património literário no Plano Nacional de Leitura faz com que decorra o fracasso do nosso próprio sistema de ensino, incentivando, acima de tudo, os alunos para um determinado tipo de leitura que vise essencialmente o conhecimento da nossa própria identidade.

De facto, Alexandre Herculano foi um grande construtor de cultura pública por ter sido mais que um escritor e uma personalidade com grande intervenção no espaço público tendo como pressuposto «o objectivo de construir uma nova cultura para o país». Vertical nas suas atitudes, Herculano rejeitou honrarias: a pasta de Ministro; a Comenda de Torre e Espada e outros títulos. Atento à política da época, o historiador entende que «a Liberdade deve ser defendida por instituições históricas credíveis».

Toda a sua obra é constituída de um pertinente realismo, face ao momento de crise em que se vive no seu tempo, mas tão actual no momento presente.

Hoje, passados tantos anos, não se pode deixar Herculano e outros grandes vultos da nossa história guardados no biombo do tempo, onde a sedimentação do pó sarcástico da memória envolvem as suas vidas e a preciosidade das suas obras literárias.

Consciente da ingratidão e do realismo da alma lusitana, Alexandre Herculano que faleceu a 13 de Setembro de 1877, merece mais do que simples manifestações despercebidas, as quais em nada servem para enaltecer o valor intrínseco da sua intervenção cultural, cívica e social.



Artur Vaz

Artigo publicado no semanário Sem Mais Jornal
de 10 de Julho de 2010