quarta-feira, setembro 29, 2010

Quase num outro país qualquer



Há muito tempo que ele tanto estranha a bondade como a maldade humana.
Foi por isso que escolheu viver num dos bairros mais feios e pobres da cidade.
Ali sabe que não é invejado nem bajulado por ninguém, nem tão pouco olhado de lado. É um indiferente, um quase invisível, como todos os outros habitantes, pretos, brancos, castanhos ou cor de rosa.

Passa a vida a pintar, porque é o que melhor faz e também o que mais o satiasfaz.
Tem compradores certas das suas aguarelas sobre Lisboa, de Alfama à Lapa. Os óleos - sem procura - enchem as paredes e apenas são conhecidos pelos raros amigos. Também pinta interiores de casas, quando os bolsos estão mais vazios e o empresário João Pintor precisa de reforços.

Achou estranho os aviões voarem tão baixo a meio da manhã, foi por isso que veio à janela. Não se assustou, como a senhora que descobriu imóvel no meio do passeio. Além de suar, tinha um ar assustado, como se pensasse que estava a rebentar uma guerra qualquer por aí.
Não achou piada ao medo da mulher idosa, muito menos ao barulho dos jactos, que conseguiram estremecer o cavalete e borrar ligeiramente a aguarela que estava a pintar.

Só à hora do almoço, quando passou pelo café, percebeu a "guerra" que se travava na Capital. Ao olhar de soslaio para a televisão, descobriu que o papa andava por aí, a fazer milagres.

O café estava mais cheio que o costume, para um dia da semana. Foi então que ouviu dizer que era feriado em Lisboa, graças ao tal rei dos católicos, que aparecia no filme com o presidente, mais angelical do que nunca.

Numa outra mesa, mais dada aos futebóis, os vizinhos preferiam o futebol à missa. Colocavam um tal Queirós no assador, enquanto faziam futurologia escura sobre o campeonato do mundo na terra do "Chaka Zulu". Não ganhavam um jogo. Queriam um tal Quim, um João Moutinho, um Martins, um Ruben qualquer coisa, um Makukula e ainda um Scolari na selecção. Rendeu-se ainda mais à sua ignorância, não sabia que havia portugueses com estes dois últimos nomes...

Antes de pagar o café, sorriu de felicidade por raramente ver televisão, ler jornais ou ouvir telefonia. A sua companhia continuava a ser o velho gira-discos e a música psicadélica dos anos sessenta e setenta.

Virou as costas ao filme de 12 de Maio e lá foi, para a sua casita, quase num outro país qualquer...


Luís Milheiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(Ilustração: desenho de André Antunes)

terça-feira, setembro 28, 2010


Citadino selvagem decidiu queimar
Todas as suas cartas
Enredadas em eufemismos de si:
Castas articulações de pós piedade que,
Após terem esganado muitos doutos flamingos,
Dá-vos destas
Ofegantes tremuras dentro da distância
Entre bruxas e arcanjos
- oh criaturas de labor descalço
viajando na fantasia mas sempre
com o coveiro às cavalitas -
sejam sabedoria de despropósito literário
nesta batedeira part-time sobre dádivas
- concessionário de comissuras
jamais premeditadas -
verga gaga e gabarolas;
chagas derrapadas à deriva
na parceria da polpa dum
alento morno e aconchegante;
com os lençóis todos descompostos como combinado
pela morbidez de tantos bocados de beijos
imbecilmente inertes
- retalhos de recordações -
no abismo da juventude
outrora viciosa,
outrora moribunda,
outrora dum limão sentimental e repugnante;
como singelo tumor cor de autópsia
- peripécias do desenrasca
a anis, cobalto e crude
quando dois corpos feitos mundo
decidem diluir-se nesta história.


Salmonela Pintassilgo


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(Ilustração de André Antunes)

domingo, setembro 26, 2010

Obsessão


dias perdidos em volta do que não volta
dias perdidos em volta do que se perdeu
porque se devia perder
porque doía e não devia
doía como uma fractura
sem tratamento
sem cuidado
e mesmo assim
esperava-se
e mesmo assim
chorava-se
quando se vai perdendo o rumo
o norte
a vontade
até a maior mentira
parece verdade


Carolina Rodrigues


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(grafismo de André Antunes)

Até já


De volta à esfera redonda, sento-me no chão
Nunca me dei bem com cadeiras.
São construções de vaidade e ostentação, perturbadores da realidade
Aqui no chão, posso estender-me sem a preocupação de cair
Aqui no chão, olho o céu e água
Aqui no chão, contrario a hereditária ceifeira
Aqui no chão, mastigo cereais sem leite
Aqui no chão, as expectativas são baixas mas a esperança é realmente verde
Aqui no chão, as pedras falam e as formigas folgam
Aqui no chão, a única agressão é provocada pela espera de um eclipse
Aqui no chão, as ideias não têm seguimento e os pensamentos confundem-se com nuvens
Daqui do chão, consigo ver-te e tocar o teu reflexo
Daqui do chão, a tua bandolete é amarela
Daqui do chão, ouço o teu sorriso
Daqui do chão, digo-te até já
É aqui no chão que vou esperar.
Daqui do chão, vou morrendo vivendo

Obrigado, são só devaneios
Não sei escrever, mas já sinto como gente grande


Tiago Espírito Santo


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

O Infinito


Dentro do encanto das palavras
E do vento que rasga o nevoeiro
Encontro as velas dum veleiro
Desfraldadas numa bandeira
Com sonhos e utopias de poetas
E loucos de jaulas desenhadas
Para lá do horizonte entre as nuvens
Escondemos percursos de marés
E descobrimos o infinito do destino

Para onde nos levam as mãos da vida
Os cacos das conchas dos nossos búzios
Os corpos desnudados dos desejos
E a chama que apagamos todos os dias

Somos restos raros de percursos e silêncios
Fomos mortos que não se deixam liquidar
25 maneiras de sermos marionetes
Com tudo o que se cala na magia do fantástico
Só nos resta os náufragos da nossa história
E o vento que não leva o pensamento
E nos deita na memória

E nos corpos nus de todos os encontros


Victor Serra
27/1/2009


Debaixo do Bulcão poezine
Número 38 - Almada, Setembro 2010

(grafismo de André Antunes)

domingo, agosto 15, 2010

FOGO POSTO


I

Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal porque as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo ou quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.


II

O aeroplano da lista vermelha é que semeia o fogo.

Von Richthofen - passe-montanha, óculos «à aviador», dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.

Abatido em 18, ressurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.

Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhes uns fogos que se vejam!

Polegar para baixo, Von Richthofen
incendiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.

Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.

Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?

Credo, custa-me a crê-lo!



Alexandre O'Neill

As Horas Já de Números Vestidas (1981)
em Poesias Completas
ed. Assírio e Alvim, Lisboa, Novembro 2000

domingo, agosto 08, 2010

António Vitorino / PLU!



Confissão de um intelectual de esquerda
Texto de António Vitorino, desenho de PLU!
Em GAMBUZINE 2

sexta-feira, agosto 06, 2010

Catarina Henriques / Fruzzi


Poema de Catarina Henriques
(publicado anteriormente no poezine 24),
desenho de Fruzzi.

Em GAMBUZINE 2

terça-feira, agosto 03, 2010

Edição 38 adiada para Setembro!


A edição 38 do Debaixo do Bulcão poezine estava agendada para Julho. Contudo, dificuldades várias obrigaam-nos a adiá-la para Setembro próximo. Aos nossos colaboradores e leitores pedimos desculpa pelo atraso. Em compensação, divulgamos já a capa desse próximo número: desenho de André Antunes, responsável pela coordenação gráfica da edição.

quarta-feira, julho 21, 2010

ALEXANDRE HERCULANO – 200 ANOS APÓS O SEU NASCIMENTO



Passados dois séculos após o nascimento de Alexandre Herculano, é de facto uma grande lacuna não ter sido organizada nenhuma iniciativa à efeméride no âmbito nacional e oficial.

Surpreendente? Nem por isso. Em ano de centenário da implantação da república, dificilmente não sobraria ao Estado dinheiro e ideias para homenagear um homem que foi “apenas” um dos nossos mais elevados vultos e um combatente – em palavras e em armas – pela liberdade, pelo progresso, e pela corporização do civismo e da ética numa época.

Além de ser um grande historiador, Herculano fez poesia, teatro, romance, e ensaios. Atento ao seu tempo, foi também um acérrimo combatente pela liberdade. Denunciou as misérias e a corrupção. Foi um liberal sempre coerente e corajoso, com uma dimensão ética rara no seu tempo (século XIX).

Enquanto intelectual foi o portador dessa mudança, envolvendo-se na educação das novas gerações em instituições filantrópicas e em sociedades filomáticas, visando uma valiosa transmissão de saberes, sedimentando a mentalidade dos jovens para o novo ideal liberal, constitucional e democrático, em profunda contradição com a sociedade burguesa, que sufragava os mais desprotegidos.

E é aqui precisamente que pode estar a causa do desinteresse por este centenário por parte de quem tem a responsabilidade de gerir a nossa Cultura, pois a sua amnésia, coloca na penumbra do esquecimento figuras tão importantes da nossa memória colectiva e ícones de nossa identidade.

Toda a sua vida foi marcada por lutas políticas e pela reconstrução literária da história de Portugal. Alexandre Herculano foi dos mais importantes e notáveis escribas do nosso panorama literário. A sua escrita é envolvente de um cunho romântico e que se esteira desde a poesia, ao drama, à novela e ao romance.

É justo que se reconheça que foi um dos grandes escritores da sua geração, desenvolvendo o romantismo por excelência e a incompatibilidade do indivíduo com o meio social que o rodeia – ou seja alguém que se singularizou como um português de horizontes largos, um historiador probo e moderno, fiel às provas e à ciência, fundador da historiografia contemporânea, um cidadão comprometido à causa liberal e exemplar.

Escritor de perfil clássico, foi dos mais dotados no manejo da língua e uma enorme figura moral – homem de um só parecer; de um só rosto; de uma só fé; de antes quebrar que torcer.
Em suma, Alexandre Herculano é um símbolo forte do seu tempo. Uma vida dedicada à causa pública numa sociedade em permanente mudança, com todas as consequências sociais e pessoais que daí pudessem advir.

Digamos que o escritor sempre se manteve fiel ao seu espírito; o da procura de uma síntese fecunda entre a tradição e a modernidade, com um empenhamento intenso pela reforma do país, de modo a combater o atraso e todas as formas de intolerância.

É importante que à falta de valores que afecta a nossa sociedade, se ponha fim a um notório silêncio propositado – a todos os níveis – e que sejam divulgados às gerações vindouras a sua rara e ímpar consistência moral.

Alexandre Herculano e outros escritores têm sido tratados de um modo injusto o que certamente não aconteceria num país civilizado, onde os homens do passado são referência primordial para a construção de um futuro.

A ausência de importantes autores do nosso património literário no Plano Nacional de Leitura faz com que decorra o fracasso do nosso próprio sistema de ensino, incentivando, acima de tudo, os alunos para um determinado tipo de leitura que vise essencialmente o conhecimento da nossa própria identidade.

De facto, Alexandre Herculano foi um grande construtor de cultura pública por ter sido mais que um escritor e uma personalidade com grande intervenção no espaço público tendo como pressuposto «o objectivo de construir uma nova cultura para o país». Vertical nas suas atitudes, Herculano rejeitou honrarias: a pasta de Ministro; a Comenda de Torre e Espada e outros títulos. Atento à política da época, o historiador entende que «a Liberdade deve ser defendida por instituições históricas credíveis».

Toda a sua obra é constituída de um pertinente realismo, face ao momento de crise em que se vive no seu tempo, mas tão actual no momento presente.

Hoje, passados tantos anos, não se pode deixar Herculano e outros grandes vultos da nossa história guardados no biombo do tempo, onde a sedimentação do pó sarcástico da memória envolvem as suas vidas e a preciosidade das suas obras literárias.

Consciente da ingratidão e do realismo da alma lusitana, Alexandre Herculano que faleceu a 13 de Setembro de 1877, merece mais do que simples manifestações despercebidas, as quais em nada servem para enaltecer o valor intrínseco da sua intervenção cultural, cívica e social.



Artur Vaz

Artigo publicado no semanário Sem Mais Jornal
de 10 de Julho de 2010

sábado, julho 17, 2010

Novo Limiar


Bocejo as multidões
Aparentemente movo-me no ar.
Esta praia, a praia deserta,
está repleta de coisas.
Conscientemente altero o meu estado de espírito
para poder voar.
Eis uma nova fronteira.
Aqui a paisagem desfaz-se
como um ser vivo imóvel.
Já não há coisas, nem o mar, nem as estrelas,
- apenas a praia onde tudo está personalizadamente desarrumado
Aí ninguém me vê nem eu vejo ninguém.
Porque todas as conchas são cegas.



Vang

Debaixo do Bulcão poezine
Númeo 4 - Almada, Julho de 1997

quinta-feira, julho 15, 2010

C'est fini la poésie...


As paredes do qurato púrpura transformaram-se em telas vivas, vestidas de pinturas impressionistas. Acordei ao som de uma melodia floral, encaixada num canto de um salão de chá vitoriano, com segredos escondidos debaixo das saias das donzelas. O piano soltava notas com cheiro a alfazema, que esvoaçavam no ar como se fossem as última folhas secas do princípio da primavera... Os violinos ensinavam o caminho para o paraíso suicida. Era um cenário perfeito. A última fantasia de uma virgem aprendiz de feiticeira.
Aumentei o volume, e a orquestra estava ao meu comando. A música colou-se ao momento, fiz amor com o piano e casei-me com o maestro.
Puro incesto musical. Não faz mal, a banda sonora não tem memória visual.


Catarina Henriques

http://algodaonegro.blogspot.com/

Debaixo do Bulcão poezine
Número 30 - Almada, Verão de 2007

domingo, julho 11, 2010

Crónica de uma manhã de Agosto


Eu estava de férias e sem vontade de ter pressa para coisa nenhuma. Saí de casa, a meio da manhã, para ir tratar de um assunto ao 1º Cartório Notarial de Almada. Mas, como ia precisar de dinheiro, e tinha pouco, achei melhor passar primeiro por uma caixa multibanco. Por sorte, existe uma caixa multibanco mesmo ao lado do 1º Cartório Notarial de Almada.

Fui.

Não havia dinheiro na caixa multibanco. Resmunguei: que raio de maneira de começar o dia. Uma senhora de idade avançada, muito simpática e algo andrajosa, pareceu adivinhar os meus pensamentos. Então, chegou-se a mim, e explicou-me que aquela caixa multibanco já não tinha dinheiro. Antes que eu me desse por satisfeito com a explicação, ainda acrescentou:
- Já não há dinheiro na outra ao lado, também.
Eu ia agradecer-lhe a solicitude, mas ela prosseguiu com a explicação:
- Já não há dinheiro. Já não há dinheiro porque, desde manhã cedo, vieram aqui muitas pessoas levantar dinheiro. Veja lá o senhor que até faziam bicha. Faziam, faziam!... Nunca vi uma bicha tão grande para levantar dinheiro. Veja lá o senhor que a bicha ia até ali à esquina. Credo, até parecia que estava toda a gente à espera que o mundo acabasse hoje. Ai, parecia, parecia!... Senão, porque é que toda a gente havia de lhe dar para levantar dinheiro logo hoje, não me dirá o senhor?
Eu não sabia. Por isso não lhe disse. E ela:
- Era uma bicha para levantar dinheiro, que até parecia que estava o mundo para se acabar!
- Pois. Mas o que se acabou foi o dinheiro - respondi-lhe.
- E, já agora, o senhor não me pode dar algum dinheirinho para eu comer uma sopinha?
Juro que, se fosse não uma senhora mas um arrumador de carros fora da sua zona de serviço, eu não lhe dava nem um cêntimo. Mas, como era uma senhora idosa, simpática e meio andrajosa... Procurei na carteira e vi que, afinal, ainda tinha dinheiro suficiente. Dei à senhora uma moeda de cem escudos, para a ajudar a comer uma sopinha. Depois, pensando melhor, acrescentei à dádiva uma moedinha de 50 escudos, para agradecer a gentileza da senhora.
Agora ando a pagar gentilezas - pensei. Que bela maneira de começar o dia!

Mas eu tinha coisas importantes para fazer. Dirigi-me, então, ao 1º Cartório Notarial de Almada. Entrei. A sala estaria às moscas, se as houvesse: não havia. O que havia, sim, era duas senhoras a cavaquear com um senhor, encostados ao balcão - do lado de fora do balcão.
- Estou grávida. Será que posso olhar para o sol? - perguntava a mais baixota.
E riam muito. A mais espigadota tinha uma chapa de radiografia na mão e explicava profusamente à baixinha e ao senhor como é que o sobrinho mais novo tinha partido um dedo quando tentava quebrar nozes na porta da cozinha.
Deduzi que aqueles eram os funcionários do 1º Cartório Notarial de Almada.
O senhor, meio fuinha mas muito correctamente engravatado, cortou a conversa:
- Bem, vamos ter de arranjar maneira de dividir isso pelos três...
Repartir uma chapa de radiografia pelos três? Que ideia bizarra, pensei.
Para me fazer notado, emiti aquele ruído com a garganta, que as pessoas fazem às vezes quando querem ser notadas. Depois, falei:
- Bom dia. Eu venho fazer o reconhecimento de uma assinatura.

Só então eles pararam de falar, e olharam para mim com um ar muito surpreendido. Resisti à tentação de tocar em mim próprio, para me certificar de que não era um fantasma. A mais entusiasta (a que dava os pormenores sobre a maneira como o sobrinho fracturara a falangeta do dedo indicador esquerdo) olhou-me com uma tromba que, na altura, me pareceu maior e mais alaranjada que a tromba do elefante do jumbo de Setúbal. A outra, desconsolada, fitou-me como se reconhecer uma assinatura fosse a tarefa mais penosa de que se conseguisse lembrar naquele instante - ou como se tivesse acabado de receber a notícia de que o seu cãozinho de estimação tinha sido atropelado na Avenida Dom Nuno Álvares Pereira. Quanto ao homenzinho, que além de pequenino era meio achinesado, virou-se para mim com tal aspecto de ferocidade que, por momentos, julguei que ia desembainhar uma katana e e saltar-me para cima gritando banzai! Mas eu tenho uma imaginação algo delirante, é esse o meu mal. Além do mais, lembrei-me, os chineses não usam katana nem dizem banzai.
- Olhe lá, não podia ter vindo noutra altura, não? - perguntou-me a tromba de elefante do jumbo de Setúbal.
E eu disse-lhe a verdade:
-Não!
Surpreendentemente (ou talvez não) a minha réplica convenceu-os. Os três, à uma, começaram logo a tratar do meu assunto. E eu juro que nunca tinha visto burocratas trabalhar de maneira trão afincada e expedita. Quando me viram aviado e a dirigir-me para a saída, nem esperaram que eu pusesse o pé na rua. Saíram de trás do balcão, vieram colados às minhas costas até à porta do 1º Cartório Notarial de Almada - e ali ficaram, a decidir qual deles iria utilizar primeiro a chapa de radiografia onde se viam os ossos maltratados do sobrinho daquela mais entusiasta e trombuda.

Ai, pus-me a matutar: será que o mundo endoideceu de repente?

Como ainda queria comprar o jornal (que eu, em férias, ando sempre mal informado, e pretendia abrir hoje uma excepção) comecei a caminhar em direcção a um quiosque que eu cá sei. Andar clarificou-me as ideias. Afinal, se o mundo tem andado a enlouquecer aos poucos, não pode ter ficado maluquinho de repente. Esse pensamento reconfortante fez-me sentir... como direi?... reconfortado. Reflectindo um pouco mais no assunto, concluí que é a própria profissão de burocrata que faz com que os burocratas acabem por ficar com os neurónios meio atrofiados. É normal.
Parecia-me uma explicação razoável e fiquei contente, comigo e com o mundo.

Mas logo me sobressaltei novamente. É que, na rua, toda a gente estava a pôr na cara uns óculos de sol horrorosos. Que coisa estranha! Aquilo fazia lembrar os óculos usados pelos personagens de um filme de John Carpenter. Esses óculos (os do filme) permitiam, a quem os usava, distinguir, claramente e em qualquer local, os extraterrestres dos legítimos nativos deste planeta Terra. Fiquei preocupado, mas...

Pronto, lá estava eu outra vez com a minha imaginação delirante.
Ando a ver demasiados filmes de ficção científica, pensei. E, caminhando, cheguei ao quiosque.
Estava fechado.
Logo aquele quiosque, que nunca fecha, estava fechado nessa malfadada manhã! Reparei então no papel branco, colado com fita adesiva na montra do quiosque, onde estava escrito a marcador o seguinte:

ENCERRADO POR MOTIVO DE ECLIPSE

Eclipse? Qual eclipse?...

Eclipse do quê?

Pois era, o eclipse... E eu, estupidamente, não me lembrava.
Censurei-me: é o que faz não ler jornais. Nem ver televisão.
E agora?

Fiquei com uma vontade danada de comer um gelado. Fui ter com um senhor que estava a vender gelados na rua, e pedi-lhe um gelado. Ele estava de nariz no ar, com aqueles óculos de sol horrorosos que me pareceram qualquer coisa tão ignóbil que agora me abstenho de referir. E, de nariz empinado, sem se dignar baixar a cabeça para olhar para mim, perguntou-me:
- Temn mesmo de der agora?
E eu disse-lhe a verdade:
- Tem.
E ele, de nariz no ar:
_ Bom...
Baixou a cabeça. Tirou os óculos. Abriu a arca de gelados. Deu-me o gelado que lhe pedi. Entreguei-lhe o dinheiro e fiquei à espera do troco. Enquanto ele contava as moedas, senti um impulso iresistível e perguntei-lhe:
- Posso experimentar?
- O quê, os óculos? Ó amigo, experimente lá, mas só durante um bocadinho, está bem? É que eu não quero perder a melhor parte do eclipse.
Então, com um assomo de emoção indescritível, agarrei naqueles óculos inefáveis, enfiei-os na minha cara, empinei o nariz para o sol.

À volta, tinha-se juntado uma mmultidão: com aqueles óculos de sol horrorosos, olhavam, de nariz empinado, para o sol daquela manhã de Agosto.

E foi assim que, finalmente, me tornei uma pessoa normal.

Daí a importância desta crónica.


11 de Agosto de 1999

Nota: Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é pura coincidência. Exceptuando, obviamente, o eclipse - que aconteceu mesmo, nessa manhã de Agosto.


António Vitorino

(texto inédito)

domingo, junho 27, 2010

Futebol


Ernesto possante, dito A Locomotiva,
Era o pulmão da sua equipa.
João Pato, jogador franzino e rápido,
Era O Grande Artista da equipa adversária.
O Locomotiva era limpo e leal
Mesmo quando entrava, como se diz, a matar.
João Pato era também o matador da equipa
Mesmo quando falhava de baliza escancarada.
Naquela tarde, a meio campo,
Perante escassas centenas de espectadores,
Corria o veloz Pato com a bola dominada
No seu drible estonteante,
Vai daí, Ernesto, o Possante, entrou com tudo,
Como se costuma dizer.
Em câmara lenta, observamos o patudo pé
do limpo e leal Possante em riste
Na fraca perninha do teórico Pato.
A televisão não nos dá o som quebradiço
Da tíbia e do perónio,
Mas vá lá que ainda conseguimos ver
A fractura exposta e o sangue.
A televisão mostra-nos que o futebol
Não passa de um jogo de bárbaros.
Os gajos da maca, que até nem gostavam de futebol
E estavam a contar estúpidas anedotas de louras,
Só se aperceberam do acidente
Quando ouviram o Pato berrar:
Ai ai ai que esta besta partiu-me a perna.
E lá levaram o Pato para fora do estádio.
Dizem os regulamentos
Que nenhum jogador pode ficar a sangrar dentro do campo.


Miki Sorraia

Debaixo do Bulcão poezine
Número 26 - Almada, Junho de 2004

sábado, junho 26, 2010

uivando nas chagas rubras da manhã


hoje, não há espaço para
lágrimas a lamber nas feridas
apenas o sangue inundando o peito e
suspiros agudos, dolorosos
escorrendo na parede das ideias


Miguel Nuno

Debaixo do Bulcão poezine
Número 18 - Almada, junho 2002