sexta-feira, março 19, 2010



Quero fugir
Mas as minhas pernas
Não deixam...
Quero gritar
Mas a minha voz morreu...
Sinto-me leve como a pena
Que em tempos segurei na mão
E pesada comop o chumbo
De correntes imaginárias
Que me aprisionam!
Este mundo não é meu
E ele sabe disso...


Ana Silva

Debaixo do Bulcão poezine
Número 2 - Almada, Março de 1997


O relógio situado
dobrando o papel
escrevinho palavras sem nexo
em sentido angular
óptica inerente ousado nú
despida da casca
gema dos rúbis amanheceres

na cama
depois do Éden
redescoberto
humanizada estratosfera
nesse cume, meu everest

antes do supra-sensível
transcendente universo
ostras e pérolas
últimos vermes
dos oceanos terrestres
flui tua sensação
nestas tão prisões
muralhas espirituais.


João Paulo

Debaixo do Bulcão poezine
Número 2 - Almada, Março de 1997

segunda-feira, março 15, 2010

Fiel amigo (ou a história de um cão chamado bacalhau)


Aos quatro anos troquei o meu avô por berlindes
Aos sete troquei a minha irmã por uma pistola
Aos nove a minha avó por um saco de pevides
Aos treze o meu tio pela primeira falta à escola
Aos catorze a minha tia pelo meu primeiro beijo
Aos quinze o meu pai pela primeira bebedeira
Aos dezasseis o meu melhor amigo por um desejo
Aos vinte o meu único amor por uma brincadeira.

Fiquei cheio de coisas, que de muito me serviram!
Claro que sem pai, sem mãe e sem tia
Foi por isso que não troquei o meu cão
(precisava de alguém que me fizesse companhia)



João Couvaneiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 2 - Almada, Março de 1997
(grafismo de Luísa Trindade)

sábado, março 13, 2010


Amor meu, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.

Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.

Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,

e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.


Pablo Neruda

XCII, de "Cem Sonetos de Amor"
(tradução de Carlos Nejar,
edição L&PM Editores S/A
Porto Alegre, 2001)

segunda-feira, março 08, 2010

Maria Campaniça



Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
mas o jeito
de mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!


Manuel da Fonseca
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Lopes_Fonseca

ilustração: Ceifeira,
de
Manuel Ribeiro de Pavia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Ribeiro_de_Pavia

quarta-feira, março 03, 2010


De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.


Pablo Neruda


(do "Poema 20" de "Veinte poemas de amor y una canción desesperada")

poema encontrado em
http://www.todas.com.br/pabloneruda.htm

domingo, fevereiro 28, 2010

Tributo a Almada, de Alexandre Castanheira


(...)

Quando Almada adormece
e a Torre da casa-mãe do Município
se desprende da turbulenta luz do dia
que ali encaminhara cidadãos
em busca dos pareceres necessários
de quem governa a cidade

A magia associativa coloca imaginárias velas
(Incríveis!)
sobre as velhas e roídas pedras das ruas de antanho

Servem para iluminar culturalmente
sociedades
academias
clubes
procurados vai já para dois séculos
por homens e mulheres que recusam ficar à parte do progresso
e decidiram não viver só às ordens de leis
decretos
e despachos
que não fizeram nem pediram

Eles querem conhecer saberes
e saber aplicá-los
a melhorar a vida de todos os dias
a desenvolver o espírito - dizem uns
a alma - dirão outros
para poderem abandonar conscientemente
os atalhos oferecidos sem saída
e caminhar firmemente pelas vias da liberdade


(...)


Alexandre Castanheira

em
Tributo a Almada (Assim aprendi a olhar Almada)
Edição Poetas Almadenses - caderno n.ª 78 da colecção Índex Poesis
(capa: grafismo de Jorge Figueira;
imagem de Albino Moura,
"Almada ontem e hoje", óleo sobre tela)

Alexandre Castanheira lê poesia do seu mais recente livro, "Tributo a Almada"



Lançamento realizado dia 27 de Fevereiro de 2010, no Le Bistro Café, em Almada, antecedendo mais uma sessão mensal de "poesia vadia".

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Poesia Vadia - edição de Fevereiro 2010


Com apresentação do novo livro de Alexandre Castanheira,
"Tributo a Almada".

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Debaixo do Bulcão poezine - a próxima edição é em Março!

A próxima edição em papel será a número 37. Está agendada para Março de 2010. Ficamos a aguardar as vossas colaborações (poesia ou textos curtos em prosa), que podem ser enviadas desde já para debaixodobulcao@netcabo.pt.

sábado, janeiro 23, 2010

Contra Corrente - um novo site de poesia!

«Contra-Corrente é uma publicação online gratuita, sem fins lucrativos, dirigido ao público leitor de poesia e prosa. Este projecto dedicado à palavra, tem como propósito dar voz aos poetas, aos escreventes, aos coleccionadores de palavras, desconhecidos do universo literário. A Revista propõe-se divulgar eventos culturais, música e outros assuntos que se achem pertinentes. Trata-se de um projecto aberto à colaboração. A primeira edição da revista está prevista para o segundo trimestre de 2010.»

Consulte as condições de participação no site
http://contracorrente.pt.vu/

(Informação recebida via Facebook)

segunda-feira, janeiro 18, 2010

A cidade é um chão de palavras pisadas




A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.



José Carlos Ary dos Santos

em
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/ary.dos.santos.html

Sobre o autor:
José Carlos Ary dos Santos era filho do médico Carlos Ary dos Santos e de Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva. Nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, a 07 de Dezembro de 1936 e faleceu a 18 de Janeiro de 1984 na mesma cidade.
Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ary_dos_Santos

domingo, janeiro 17, 2010

Bocage in Almada


elmano sadino poeta libertino
veio à procura de drogas & rock and roll
e ver se as águas do tejo são mesmo radioactivas
e porque é que não conseguimos cair do cristorei.
veio à procura de sexo e cerveja
e os golfinhos não esquecer os golfinhos
que na sua terra não se comem: são roazes
e há moscatel e choco frito e a interminável chatice.
por isso elmano sadino poeta libertino
veio conhecer a urbe dos psicotrópicos e da violência
das caixas de multibanco e das seringas
pois na sua terra não existe nada disso
and that's boring.


António Vitorino

Debaixo do Bulcão poezine
Número 16 - Almada, Janeiro de 2002

terça-feira, janeiro 12, 2010


um poema feito em computador
directamente no ecran do computador
(isso não existe. antes escreveste
no teclado do computador)
não existe. se existe
não pode ser poema
propriamente. será
o que estiveres a sentir.

até podes ser tu.
mas nunca és tu.

o único poema
o verdadeiro único poema
é o que corre dentro de ti.
é o teu sangue
e isso não consegues entender.

explica lá isso ao computador. (ao sangue do computador)

explica lá isso a ti próprio.

explica-te a ti próprio.

explica.

te.


Baltasar Mingo

Debaixo do Bulcão poezine
Número 16 - Almada, Janeiro de 2002