quarta-feira, março 03, 2010


De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.


Pablo Neruda


(do "Poema 20" de "Veinte poemas de amor y una canción desesperada")

poema encontrado em
http://www.todas.com.br/pabloneruda.htm

domingo, fevereiro 28, 2010

Tributo a Almada, de Alexandre Castanheira


(...)

Quando Almada adormece
e a Torre da casa-mãe do Município
se desprende da turbulenta luz do dia
que ali encaminhara cidadãos
em busca dos pareceres necessários
de quem governa a cidade

A magia associativa coloca imaginárias velas
(Incríveis!)
sobre as velhas e roídas pedras das ruas de antanho

Servem para iluminar culturalmente
sociedades
academias
clubes
procurados vai já para dois séculos
por homens e mulheres que recusam ficar à parte do progresso
e decidiram não viver só às ordens de leis
decretos
e despachos
que não fizeram nem pediram

Eles querem conhecer saberes
e saber aplicá-los
a melhorar a vida de todos os dias
a desenvolver o espírito - dizem uns
a alma - dirão outros
para poderem abandonar conscientemente
os atalhos oferecidos sem saída
e caminhar firmemente pelas vias da liberdade


(...)


Alexandre Castanheira

em
Tributo a Almada (Assim aprendi a olhar Almada)
Edição Poetas Almadenses - caderno n.ª 78 da colecção Índex Poesis
(capa: grafismo de Jorge Figueira;
imagem de Albino Moura,
"Almada ontem e hoje", óleo sobre tela)

Alexandre Castanheira lê poesia do seu mais recente livro, "Tributo a Almada"



Lançamento realizado dia 27 de Fevereiro de 2010, no Le Bistro Café, em Almada, antecedendo mais uma sessão mensal de "poesia vadia".

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Poesia Vadia - edição de Fevereiro 2010


Com apresentação do novo livro de Alexandre Castanheira,
"Tributo a Almada".

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Debaixo do Bulcão poezine - a próxima edição é em Março!

A próxima edição em papel será a número 37. Está agendada para Março de 2010. Ficamos a aguardar as vossas colaborações (poesia ou textos curtos em prosa), que podem ser enviadas desde já para debaixodobulcao@netcabo.pt.

sábado, janeiro 23, 2010

Contra Corrente - um novo site de poesia!

«Contra-Corrente é uma publicação online gratuita, sem fins lucrativos, dirigido ao público leitor de poesia e prosa. Este projecto dedicado à palavra, tem como propósito dar voz aos poetas, aos escreventes, aos coleccionadores de palavras, desconhecidos do universo literário. A Revista propõe-se divulgar eventos culturais, música e outros assuntos que se achem pertinentes. Trata-se de um projecto aberto à colaboração. A primeira edição da revista está prevista para o segundo trimestre de 2010.»

Consulte as condições de participação no site
http://contracorrente.pt.vu/

(Informação recebida via Facebook)

segunda-feira, janeiro 18, 2010

A cidade é um chão de palavras pisadas




A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.



José Carlos Ary dos Santos

em
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/ary.dos.santos.html

Sobre o autor:
José Carlos Ary dos Santos era filho do médico Carlos Ary dos Santos e de Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva. Nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, a 07 de Dezembro de 1936 e faleceu a 18 de Janeiro de 1984 na mesma cidade.
Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ary_dos_Santos

domingo, janeiro 17, 2010

Bocage in Almada


elmano sadino poeta libertino
veio à procura de drogas & rock and roll
e ver se as águas do tejo são mesmo radioactivas
e porque é que não conseguimos cair do cristorei.
veio à procura de sexo e cerveja
e os golfinhos não esquecer os golfinhos
que na sua terra não se comem: são roazes
e há moscatel e choco frito e a interminável chatice.
por isso elmano sadino poeta libertino
veio conhecer a urbe dos psicotrópicos e da violência
das caixas de multibanco e das seringas
pois na sua terra não existe nada disso
and that's boring.


António Vitorino

Debaixo do Bulcão poezine
Número 16 - Almada, Janeiro de 2002

terça-feira, janeiro 12, 2010


um poema feito em computador
directamente no ecran do computador
(isso não existe. antes escreveste
no teclado do computador)
não existe. se existe
não pode ser poema
propriamente. será
o que estiveres a sentir.

até podes ser tu.
mas nunca és tu.

o único poema
o verdadeiro único poema
é o que corre dentro de ti.
é o teu sangue
e isso não consegues entender.

explica lá isso ao computador. (ao sangue do computador)

explica lá isso a ti próprio.

explica-te a ti próprio.

explica.

te.


Baltasar Mingo

Debaixo do Bulcão poezine
Número 16 - Almada, Janeiro de 2002

domingo, janeiro 10, 2010

estado (s) de alma

Não sei se gostas de teatro ou de cinema
De Poesia ou de Drama
Não sei se gostas de ler ou ouvir música
Do azul ou do vermelho
Da seda ou do algodão
Não sei se gostas de Sol ou de chuva
Da Primavera ou do Outono
Do mar ou do campo
Não sei se gostas dos Rolling Stones ou do Frank Zappa
Do branco ou do preto
Não sei se gostas de cães ou de gatos
De ouro ou de prata
De pérolas ou de diamantes
Não sei se gostas de Salsa ou de Tango
De andar de avião ou de barco
Não sei se gostas de cravos ou de tulipas
De dança clássica ou de moderna
De pintura ou de escultura
De Picasso ou de Rodin
Não sei se gostas de mim ou de outro
Se me conheces ou se me reconheces

Não tenho desculpa para tanto desconhecimento
Não encontro desculpas para tanto desconhecimento

Sei isso sim do que eu gosto
Dos teus cabelos e dos teus lábios
Do teu sorriso e da tua voz

E porque tenho sempre a liberdade de sonhar
Ninguém pode proibir-me de te amar

Alma de(a) 10 Julho 1998


António Marques


Debaixo do Bulcão poezine
Número 12 - Almada, Janeiro 1999

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Álvaro Valente o Homem e a Obra: novo livro de Artur Vaz

Com lançamento marcado para 31 de Janeiro, Artur Vaz vai lançar a biografia de Álvaro Valente, personalidade interventora na vida cívica montijense, nomeadamente na primeira metade do século XX, numa edição da Câmara Municipal do Montijo.
Farmacêutico de profissão, republicano de ideário político, Álvaro Valente distinguiu-se, também, como fluente orador. Maior notabilidade local e nacional alcançou a partir da década 30 do século XX, quando se entrosou com a causa dos bombeiros voluntários, primeiro na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Montijo, de que foi comandante (a partir de Janeiro de 1931), depois, ampliando a sua intervenção no aparecimento da Liga dos Bombeiros Portugueses.

É dele a autoria do lema Vida Por Vida, hoje o ex-líbris do ideário de todos os “soldados da paz”.

Este trabalho histórico, para além de preservar a memória colectiva do Montijo, entronca também pedaços e factos inéditos da história local de Pinhal Novo, Estremoz e outros lugares como: Almada, onde encetou várias palestras, sendo ainda autor do poema do seu hino municipal, musicalizado pelo célebre maestro Leonel Duarte Ferreira e da obra poética em onze cantos Um Hino a Almada, raridade bibliográfica.

Tem prefácio do professor universitário e historiador Dr. Luís Graça, que diz a dado passo: “um diligente trabalho de pesquisa, sobretudo a nível da documentação provante, escorado em adequada bibliografia e honesta exposição. Mais uma obra para a galeria da bibliografia montijense, a reforçar os valores de uma identidade local, pois o seu autor é um investigador prestigiado pelos trabalhos a que mete ombros, fundamentais para o entendimento das origens destas terras da margem sul do Tejo”.

sábado, janeiro 02, 2010

Insónia



Após o tempo aquático quando a chuva vela, vem então pela janela do meu quarto uma frescura nocturna, como se as horas condensassem todas as brisas do dia, num polvilhar repentino de luzes quietas e nítidas de um branco amarelado, ao fundo quase vermelho, testemunhas mudas do ruído, ao longe, dos veículos dispersos. Pela rua, onde tudo dorme alheio e igual, um silêncio móvel e vibrente torna agradáveis as árvores estáticas e as janelas envidraçadas no dormente pálido do ar. É de facto a noite, luzindo misteriosa, trazendo nos seus dedos vastos e antiquíssimos, um não sei quê de amargura e de alegria. Perdi o sono, lá para trás entre tantas ruelas difusas de multidão, e escrevo sem sonhar, companheiro anónimo do luar no lago da noite, esfarelando o tempo entre os dedos ávidos de sonho, olhando indiferente as migalhas do tédio em que a minha consciência se abandona.

No grande claustro deste mundo sossegado, o pórtico rendilhado das sensações abre o seu sorriso estelar, ao fim das lajes da procura, para outra sala abobadada. No prédio em frente, incadeado pela luz pérola de um grande candeeiro tricéfalo, um morador tardio aproxima-se do vidro baço da porta, preparando-se para subir. Os outros caem no esquecimento momentâneo da vida, até projectarem os punhos amarrotados e dançantes numa curva rápida a caminho da sua inércia primitiva.

De repente, tudo é morto, pavorosamente apodrecido pelo espasmo absurdo das coisas. Tudo é o mesmo igual, grande jazigo de vidro onde repousam os gestos diluídos e abstractos. E é, como um grande palácio de Tsarkoie de cartas de jogar, varrido ocamente pelo vento, metáfora inútil à luz submersa das cúpulas, derretidas sob o meu olhar demorado e vazante de tudo ser assim.

Antigamente, eu brincava no patamar recôndito daquele sétimo andar, onde a grande varanda traseira boiava ao luar real, concentrando nos meus olhos indagantes de criança. Parava, com as mãos rodopiantes, a pequena bola colorida e transparente, e olhava o escuro suspenso sobre o mural laranja, gozando a impressão dormente de ser uma estrela. Vivia assim o meu sonho secreto e a noite era límpida ao olhar-me através dos seus cabelos envolventes. E eu ficava, sentado contra a parede ao pé da porta, a luzir nos seus olhos misteriosos, como uma anémona arrancada ao fundo invisível do mar.

Antigamente, o vasto e morno real dos desertos perdidos, onde os meus passos se trocaram para este caminhar insubmisso pelas fragas da memória, onde as rochas dilatam fundas formas surreais, como chamas de pedra prolongando os olhos fossilizados para este lado da vida. E o que sou por fora, são essas ruínas arquétipos do antigamente, dispersas pela floresta de chuva dorecordar. E o que sou por dentro, descolora-se no sorriso cúmplice do maquinista da locomotiva velha em cima do móvel, partida da gare do ontem, entre as ervas velhas da linha de ferro, para a cúpula da chegada do futuro, onde não sei quem era, e minto quem não sei ao certo se fui eu.

E esta noite vegetativa, segredo vácuo e caminhante pelo rolo dos tempos, e a grande inércia indecisa que chega dos quatro cantos do quarto, são grandes esferas de silêncio com árvores e luzes lá dentro, recolhidas pela rua deserta até ao ponto de alguma espécie de infinito oculto para a paisagem.

Ontens, hoje, horas, noite, pequenas secretas brincadeiras felizes de terem sido, espuma no espaço, que se dissolve na percepção de terem sido notadas. Caixa de vidro rachado das nevralgias possíveis, traço rápido dos faróis diagonais e vastos no negro modular de tudo, onde eu, por um acontecimento casual da vida, mergulho recolhido a um canto, como um esquecido frasco vazio...

Quem me olho? Que sinto? Tudo dorme como um grande lago estagnado...


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 12 - Almada, Janeiro de 1999

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Receita de Ano Novo




Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade



Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.em
http://www.releituras.com/drummond_dezembro.asp

terça-feira, dezembro 29, 2009

Vade retro




quando olhas pela janela do metropolitano entre anjos e socorro
desconfias que por trás do veloz muro
lá bem entranhado na laboriosa terra há um resto
de fenícios já tardios que ali na terra tombaram.
deixaste atrás de ti um capitel grego em arroios
e uma bexiga de porco medieval em alvalade.
apontas para pontinha. mas vais suspeitar de mouros no saldanha
e de peste que só mata castelhanos lá no rato.
entopes-te toupeiramente mesmo em baixo do marquês
e sais ofuscado de luz em campo grande.
então finalmente pensas:
no tempo em que alexandre o'neill pisava o chão da cidade
era bem mais pequena a rede: era ridícula
e hoje finalmente já não é.



António Vitorino

Debaixo do Bulcão poezine
Número 20 - Almada, Dezembro 2002

(poema inspirado na famosa frase de Alexandre O'Neill "vá de metro, satanás!")

domingo, dezembro 27, 2009

Tehil (um salmo)

´


Vens ao meu jardim
ao meu retiro de aves e pensamentos
colher da Tua mirra com tuas mãos cobertas
de orvalho: comer Teu leite e mel
oh corpo que estendes as águas oh Senhor do sol!
Olhas-me e a chuva sobre as casas
cai no espaço fluido do mundo...
Oh eu sou às vezes nevrálgico como um sono sem sonhos...

Tenho sede de Ti! Como o veado a gazela
suspiram pelas cordas de água nas montanhas...
Teus mistérios são harpas: as músicas do futuro
num vale ao longe - em Ti
aprendi a morrer...

(Nos plátanos da estrada
- círculo oval palidamente fechado
nessa elipse vegetal do vento -
não foram ainda dispersas as amarelas folhas
E uma luz tímida enche agora a tarde
Quem sabe ela virá achar-me os cabelos
se eles ficarem cinza pela terra...)

E vejo as Tuas mãos no repouso
de mim: pois Tu me gravaste na Tua carne
Meus muros estão sempre perante Ti
Meus olhos são húmidos perante as linhas nocturnas

Mas Tu
Tu ficas e andas com os Teus pés
no meu jardim como no olho da tempestade...


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 20 - Almada, Dezembro 2002