sábado, janeiro 02, 2010

Insónia



Após o tempo aquático quando a chuva vela, vem então pela janela do meu quarto uma frescura nocturna, como se as horas condensassem todas as brisas do dia, num polvilhar repentino de luzes quietas e nítidas de um branco amarelado, ao fundo quase vermelho, testemunhas mudas do ruído, ao longe, dos veículos dispersos. Pela rua, onde tudo dorme alheio e igual, um silêncio móvel e vibrente torna agradáveis as árvores estáticas e as janelas envidraçadas no dormente pálido do ar. É de facto a noite, luzindo misteriosa, trazendo nos seus dedos vastos e antiquíssimos, um não sei quê de amargura e de alegria. Perdi o sono, lá para trás entre tantas ruelas difusas de multidão, e escrevo sem sonhar, companheiro anónimo do luar no lago da noite, esfarelando o tempo entre os dedos ávidos de sonho, olhando indiferente as migalhas do tédio em que a minha consciência se abandona.

No grande claustro deste mundo sossegado, o pórtico rendilhado das sensações abre o seu sorriso estelar, ao fim das lajes da procura, para outra sala abobadada. No prédio em frente, incadeado pela luz pérola de um grande candeeiro tricéfalo, um morador tardio aproxima-se do vidro baço da porta, preparando-se para subir. Os outros caem no esquecimento momentâneo da vida, até projectarem os punhos amarrotados e dançantes numa curva rápida a caminho da sua inércia primitiva.

De repente, tudo é morto, pavorosamente apodrecido pelo espasmo absurdo das coisas. Tudo é o mesmo igual, grande jazigo de vidro onde repousam os gestos diluídos e abstractos. E é, como um grande palácio de Tsarkoie de cartas de jogar, varrido ocamente pelo vento, metáfora inútil à luz submersa das cúpulas, derretidas sob o meu olhar demorado e vazante de tudo ser assim.

Antigamente, eu brincava no patamar recôndito daquele sétimo andar, onde a grande varanda traseira boiava ao luar real, concentrando nos meus olhos indagantes de criança. Parava, com as mãos rodopiantes, a pequena bola colorida e transparente, e olhava o escuro suspenso sobre o mural laranja, gozando a impressão dormente de ser uma estrela. Vivia assim o meu sonho secreto e a noite era límpida ao olhar-me através dos seus cabelos envolventes. E eu ficava, sentado contra a parede ao pé da porta, a luzir nos seus olhos misteriosos, como uma anémona arrancada ao fundo invisível do mar.

Antigamente, o vasto e morno real dos desertos perdidos, onde os meus passos se trocaram para este caminhar insubmisso pelas fragas da memória, onde as rochas dilatam fundas formas surreais, como chamas de pedra prolongando os olhos fossilizados para este lado da vida. E o que sou por fora, são essas ruínas arquétipos do antigamente, dispersas pela floresta de chuva dorecordar. E o que sou por dentro, descolora-se no sorriso cúmplice do maquinista da locomotiva velha em cima do móvel, partida da gare do ontem, entre as ervas velhas da linha de ferro, para a cúpula da chegada do futuro, onde não sei quem era, e minto quem não sei ao certo se fui eu.

E esta noite vegetativa, segredo vácuo e caminhante pelo rolo dos tempos, e a grande inércia indecisa que chega dos quatro cantos do quarto, são grandes esferas de silêncio com árvores e luzes lá dentro, recolhidas pela rua deserta até ao ponto de alguma espécie de infinito oculto para a paisagem.

Ontens, hoje, horas, noite, pequenas secretas brincadeiras felizes de terem sido, espuma no espaço, que se dissolve na percepção de terem sido notadas. Caixa de vidro rachado das nevralgias possíveis, traço rápido dos faróis diagonais e vastos no negro modular de tudo, onde eu, por um acontecimento casual da vida, mergulho recolhido a um canto, como um esquecido frasco vazio...

Quem me olho? Que sinto? Tudo dorme como um grande lago estagnado...


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 12 - Almada, Janeiro de 1999

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Receita de Ano Novo




Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade



Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.em
http://www.releituras.com/drummond_dezembro.asp

terça-feira, dezembro 29, 2009

Vade retro




quando olhas pela janela do metropolitano entre anjos e socorro
desconfias que por trás do veloz muro
lá bem entranhado na laboriosa terra há um resto
de fenícios já tardios que ali na terra tombaram.
deixaste atrás de ti um capitel grego em arroios
e uma bexiga de porco medieval em alvalade.
apontas para pontinha. mas vais suspeitar de mouros no saldanha
e de peste que só mata castelhanos lá no rato.
entopes-te toupeiramente mesmo em baixo do marquês
e sais ofuscado de luz em campo grande.
então finalmente pensas:
no tempo em que alexandre o'neill pisava o chão da cidade
era bem mais pequena a rede: era ridícula
e hoje finalmente já não é.



António Vitorino

Debaixo do Bulcão poezine
Número 20 - Almada, Dezembro 2002

(poema inspirado na famosa frase de Alexandre O'Neill "vá de metro, satanás!")

domingo, dezembro 27, 2009

Tehil (um salmo)

´


Vens ao meu jardim
ao meu retiro de aves e pensamentos
colher da Tua mirra com tuas mãos cobertas
de orvalho: comer Teu leite e mel
oh corpo que estendes as águas oh Senhor do sol!
Olhas-me e a chuva sobre as casas
cai no espaço fluido do mundo...
Oh eu sou às vezes nevrálgico como um sono sem sonhos...

Tenho sede de Ti! Como o veado a gazela
suspiram pelas cordas de água nas montanhas...
Teus mistérios são harpas: as músicas do futuro
num vale ao longe - em Ti
aprendi a morrer...

(Nos plátanos da estrada
- círculo oval palidamente fechado
nessa elipse vegetal do vento -
não foram ainda dispersas as amarelas folhas
E uma luz tímida enche agora a tarde
Quem sabe ela virá achar-me os cabelos
se eles ficarem cinza pela terra...)

E vejo as Tuas mãos no repouso
de mim: pois Tu me gravaste na Tua carne
Meus muros estão sempre perante Ti
Meus olhos são húmidos perante as linhas nocturnas

Mas Tu
Tu ficas e andas com os Teus pés
no meu jardim como no olho da tempestade...


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 20 - Almada, Dezembro 2002

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Poema de Natal, de Vinicius de Moraes

Poema de Vinicius de Morais, interpretado por Camila Morgado e Ricardo Blat. Trecho extraído do filme de Miguel Faria Jr. POEMA DE NATAL

quarta-feira, dezembro 23, 2009




o dinheiro não tem raça
mata todos por igual
todos os pobres da praça
esperam o seu pai natal

e se o pai natal não vem
já não faz mal, tá-se bem
bebe-se um copo a doer
fumos depois de beber


Affonso Gallo
http://affonsogallo.blogspot.com/

Debaixo do Bulcão poezine
Número 7 - Almada, Dezembro 1997

A História de um Homem


Rua fora fugia
Corria velozmente
Por uma recta imaginária

A população observava-o
Admirada com tal atitude

No seu horizonte
Estava um campo verde
Umas casas baixinhas
Uma população
Constituída por Humanos
Um ar fresquinho

Respirava-se um ambiente de amizade
Em vez de se "comerem"
Apoiavam-se
Em vez de objectivarem dinheiro
Lutavam por uma vida
Em vez de agredirem
Paravam para dialogar

O homem tinha descoberto
Uma jóia
Bem diferente da jóia da sociedade.

Pessoalmente reparei nele
E corri junto dele.


Ana Monteiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 27 - Almada, Dezembro 2004

terça-feira, dezembro 22, 2009

VIVO




Olhar aquele cigarro aceso que desejo
E que é meu e que levo à boca
Faz-me sentir vivo

Olhar o céu e sentir o chão debaixo dos pés
Caminhar ao Sol ou à chuva
Faz-me sentir vivo

Numa oração a um deus tão igual e tão diferente
Eu peço:
Faz-me sentir vivo

Faz-me sentir vivo.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 11 - Almada, Dezembro 1998

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas


Sala Pablo Neruda do Fórum Municipal Romeu Correia
Biblioteca Central de Almada
16 de Dezembro de 2009 (quarta-feira)
21h30

O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas
Poesia de António Vitorino (de 1989); prefácio de Alexandre Castanheira, capa de de Rui Tavares, paginação de Ermelinda Toscano. Uma edição Index Poesis (Poetas Almadenses).

Sobre o autor:

António Vitorino foi animador cultural na década de 1980 (no Centro Cultural de Almada), jornalista desde 1992 (em diversos órgãos regionais de imprensa escrita e falada), editor de uma publicação de poesia (Debaixo do Bulcão poezine) desde 1996. Actualmente exerce funções de assessoria num gabinete de comunicação.

Escreve poesia desde o início da década de 80. Publicou, durante essa década, no suplemento literário DN-Jovem, do Diário de Notícias e no suplemento juvenil do Boletim Municipal de Almada. Tem 3 cadernos de poesia (pequenas colectâneas de poemas avulsos) na colecção Index Poesis (o primeiro dos quais - número 1 dessa colecção - com o pseudónimo Affonso Gallo). Está referenciado no livro "Gente de Letras com Vínculo a Almada - bio-bibliografias", edição SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, 2005.

Apresenta agora "O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas", livro escrito em 1989. É este, na verdade, o seu "primeiro livro".

Sobre a obra poética de António Vitorino, escreve o autor do prefácio, Alexandre Castanheira «estamos perante um dos melhores valores da Poesia escrita por homens e mulheres de Almada» (http://umaefemeridemotivadora.blogspot.com).

A capa do livro é da autoria de Rui Tavares, fotógrafo e artista plástico luso-angolano, galardoado com diversos prémios de âmbito internacional.

A apresentação do livro contará também com um espectáculo, elaborado para o efeito pelos actores José Vaz e João Vasco Henriques (sonorizado pelo projecto "O Burro e o Cigano"), a partir dos 17 poemas que compõem "O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas".

Ciclo da serpente




rara serpente. submersa sob o gelo das palavras
e a brancura rubra dos lugares onde
o frio da navalha se submete
à serpente imaginada.


António Vitorino

O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas (1989)
Edição Index Poesis. Almada, Dezembro de 2009

domingo, dezembro 13, 2009

Miraculum




respeitar a trova, serpente dos dias ácidos
que na treva se desdobra. sibilina

maré de dor.

preparo a pele doce, humus quente
respiração da água

preliminar serpente.



António Vitorino

em O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas (1989)
edição Index Poesis, Almada Dezembro de 2009

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O Dominó da Malta


Queria era o três-cinco!
Catorze!
Joga o quatro-cinco!
Tem dez.
Também não foi mal jogado.
O Vargas vai à frente.
(Bem o jogo está uma merda.
Passas?)

Podes crer.
Bem, está cada vez + alto, não tá?
Eu atrofio um bocado
de jogar esta merda.
Ouve o meu jogo está
Está um bocado... morto!
Dez e dominó

Miguel Nuno

Debaixo do Bulcão poezine
Número 1 - Almada, Dezembro 1996

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Êxtase de milhões de mega-unidades de sensação


Colocado directamente no virtual processo,
Encaixo-me no arquivo-ajuda
De extensão extremamente reduzida.
Teclo os dentes com estes dedos
De unhas roídas
E observo aquele "porco" do rato
Morto há três dias.
Navego, sentado, com um cigarro numa mão
E o rato (quase) completamente inanimado na outra
E o olhar parado vê... finalmente
Uma malha aberta na rede
Por onde me posso escapar.
Assim faço.
Aquele caixote iluminado
Que estranhamente não é bem uma televisão,
Mostra-me no écran
Aquilo que eu vejo para o meu futuro
(O écran está completamente negro)
E é a negrura
Que não tem nada de noite
E que tem tudo de ausência...
Que eu olho...
...

E lixado com isto tudo, apago o cigarro,
E digo para o meu gato que dormia sossegado:
- A merda da máquina deu o peido!!
E estranhamente cheirou-me mal.........
O gato acabara de se peidar para mim.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 1 - Almada, Dezembro 1996

terça-feira, dezembro 01, 2009

"Este Amigo que eu Canto"

Cantada por Simone de Oliveira

A letra é do poeta José Carlos Ary dos Santos e a música de Fernando Tordo.