domingo, dezembro 27, 2009

Tehil (um salmo)

´


Vens ao meu jardim
ao meu retiro de aves e pensamentos
colher da Tua mirra com tuas mãos cobertas
de orvalho: comer Teu leite e mel
oh corpo que estendes as águas oh Senhor do sol!
Olhas-me e a chuva sobre as casas
cai no espaço fluido do mundo...
Oh eu sou às vezes nevrálgico como um sono sem sonhos...

Tenho sede de Ti! Como o veado a gazela
suspiram pelas cordas de água nas montanhas...
Teus mistérios são harpas: as músicas do futuro
num vale ao longe - em Ti
aprendi a morrer...

(Nos plátanos da estrada
- círculo oval palidamente fechado
nessa elipse vegetal do vento -
não foram ainda dispersas as amarelas folhas
E uma luz tímida enche agora a tarde
Quem sabe ela virá achar-me os cabelos
se eles ficarem cinza pela terra...)

E vejo as Tuas mãos no repouso
de mim: pois Tu me gravaste na Tua carne
Meus muros estão sempre perante Ti
Meus olhos são húmidos perante as linhas nocturnas

Mas Tu
Tu ficas e andas com os Teus pés
no meu jardim como no olho da tempestade...


António José Coutinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 20 - Almada, Dezembro 2002

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Poema de Natal, de Vinicius de Moraes

Poema de Vinicius de Morais, interpretado por Camila Morgado e Ricardo Blat. Trecho extraído do filme de Miguel Faria Jr. POEMA DE NATAL

quarta-feira, dezembro 23, 2009




o dinheiro não tem raça
mata todos por igual
todos os pobres da praça
esperam o seu pai natal

e se o pai natal não vem
já não faz mal, tá-se bem
bebe-se um copo a doer
fumos depois de beber


Affonso Gallo
http://affonsogallo.blogspot.com/

Debaixo do Bulcão poezine
Número 7 - Almada, Dezembro 1997

A História de um Homem


Rua fora fugia
Corria velozmente
Por uma recta imaginária

A população observava-o
Admirada com tal atitude

No seu horizonte
Estava um campo verde
Umas casas baixinhas
Uma população
Constituída por Humanos
Um ar fresquinho

Respirava-se um ambiente de amizade
Em vez de se "comerem"
Apoiavam-se
Em vez de objectivarem dinheiro
Lutavam por uma vida
Em vez de agredirem
Paravam para dialogar

O homem tinha descoberto
Uma jóia
Bem diferente da jóia da sociedade.

Pessoalmente reparei nele
E corri junto dele.


Ana Monteiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 27 - Almada, Dezembro 2004

terça-feira, dezembro 22, 2009

VIVO




Olhar aquele cigarro aceso que desejo
E que é meu e que levo à boca
Faz-me sentir vivo

Olhar o céu e sentir o chão debaixo dos pés
Caminhar ao Sol ou à chuva
Faz-me sentir vivo

Numa oração a um deus tão igual e tão diferente
Eu peço:
Faz-me sentir vivo

Faz-me sentir vivo.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 11 - Almada, Dezembro 1998

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas


Sala Pablo Neruda do Fórum Municipal Romeu Correia
Biblioteca Central de Almada
16 de Dezembro de 2009 (quarta-feira)
21h30

O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas
Poesia de António Vitorino (de 1989); prefácio de Alexandre Castanheira, capa de de Rui Tavares, paginação de Ermelinda Toscano. Uma edição Index Poesis (Poetas Almadenses).

Sobre o autor:

António Vitorino foi animador cultural na década de 1980 (no Centro Cultural de Almada), jornalista desde 1992 (em diversos órgãos regionais de imprensa escrita e falada), editor de uma publicação de poesia (Debaixo do Bulcão poezine) desde 1996. Actualmente exerce funções de assessoria num gabinete de comunicação.

Escreve poesia desde o início da década de 80. Publicou, durante essa década, no suplemento literário DN-Jovem, do Diário de Notícias e no suplemento juvenil do Boletim Municipal de Almada. Tem 3 cadernos de poesia (pequenas colectâneas de poemas avulsos) na colecção Index Poesis (o primeiro dos quais - número 1 dessa colecção - com o pseudónimo Affonso Gallo). Está referenciado no livro "Gente de Letras com Vínculo a Almada - bio-bibliografias", edição SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, 2005.

Apresenta agora "O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas", livro escrito em 1989. É este, na verdade, o seu "primeiro livro".

Sobre a obra poética de António Vitorino, escreve o autor do prefácio, Alexandre Castanheira «estamos perante um dos melhores valores da Poesia escrita por homens e mulheres de Almada» (http://umaefemeridemotivadora.blogspot.com).

A capa do livro é da autoria de Rui Tavares, fotógrafo e artista plástico luso-angolano, galardoado com diversos prémios de âmbito internacional.

A apresentação do livro contará também com um espectáculo, elaborado para o efeito pelos actores José Vaz e João Vasco Henriques (sonorizado pelo projecto "O Burro e o Cigano"), a partir dos 17 poemas que compõem "O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas".

Ciclo da serpente




rara serpente. submersa sob o gelo das palavras
e a brancura rubra dos lugares onde
o frio da navalha se submete
à serpente imaginada.


António Vitorino

O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas (1989)
Edição Index Poesis. Almada, Dezembro de 2009

domingo, dezembro 13, 2009

Miraculum




respeitar a trova, serpente dos dias ácidos
que na treva se desdobra. sibilina

maré de dor.

preparo a pele doce, humus quente
respiração da água

preliminar serpente.



António Vitorino

em O Ciclo da Serpente - premonições deveras líricas (1989)
edição Index Poesis, Almada Dezembro de 2009

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O Dominó da Malta


Queria era o três-cinco!
Catorze!
Joga o quatro-cinco!
Tem dez.
Também não foi mal jogado.
O Vargas vai à frente.
(Bem o jogo está uma merda.
Passas?)

Podes crer.
Bem, está cada vez + alto, não tá?
Eu atrofio um bocado
de jogar esta merda.
Ouve o meu jogo está
Está um bocado... morto!
Dez e dominó

Miguel Nuno

Debaixo do Bulcão poezine
Número 1 - Almada, Dezembro 1996

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Êxtase de milhões de mega-unidades de sensação


Colocado directamente no virtual processo,
Encaixo-me no arquivo-ajuda
De extensão extremamente reduzida.
Teclo os dentes com estes dedos
De unhas roídas
E observo aquele "porco" do rato
Morto há três dias.
Navego, sentado, com um cigarro numa mão
E o rato (quase) completamente inanimado na outra
E o olhar parado vê... finalmente
Uma malha aberta na rede
Por onde me posso escapar.
Assim faço.
Aquele caixote iluminado
Que estranhamente não é bem uma televisão,
Mostra-me no écran
Aquilo que eu vejo para o meu futuro
(O écran está completamente negro)
E é a negrura
Que não tem nada de noite
E que tem tudo de ausência...
Que eu olho...
...

E lixado com isto tudo, apago o cigarro,
E digo para o meu gato que dormia sossegado:
- A merda da máquina deu o peido!!
E estranhamente cheirou-me mal.........
O gato acabara de se peidar para mim.


José João da Costa Mota

Debaixo do Bulcão poezine
Número 1 - Almada, Dezembro 1996

terça-feira, dezembro 01, 2009

"Este Amigo que eu Canto"

Cantada por Simone de Oliveira

A letra é do poeta José Carlos Ary dos Santos e a música de Fernando Tordo.

terça-feira, novembro 24, 2009

Poema do Coração


"Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas ( a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.

Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?"


António Gedeão
em

quinta-feira, novembro 19, 2009

Da relação, nem sempre evidente, entre poesia e ciência


O blogue "da realidade outra" é expressão, na internet, de um núcleo de poesia da Miau Associação - entidade parceira do projecto Cientistas ao Palco. Aqui fica um poema retirado desse blogue.

movimento perpétuo


Pensamos a partir do postulado
De que tudo no mundo é relativo,
Quando é certo que em tudo o que medimos
é a nossa própria dimensão que achamos.
Em cada óbito o cosmos morre inteiro
E inteiro vai ressuscitar no óvulo
Que, fecundado, vinga.

publicado por Francisco Arcos

segunda-feira, novembro 16, 2009

Justiça às serpentes



quem te disse a ti, poeta, que as serpentes são viscosas?
que mania! vê lá se encontras outras imagens, está bem?
por exemplo: há serpentes venenosas, sim
há serpentes muito grandes, enrolam-se ao pescoço
de algumas divagações inconsequentes (desperdício...).
não é muito aconselhável remexer em ninho de serpentes
e há horror arrepiante numa cave onde as serpentes se enovelam.
tudo isso é muito certo. mas não lhes chames viscosas.

viscosas são as lesmas, as almas de gabinete
e os hipócritas que sabem escorregar para cima.


António Vitorino


Debaixo do Bulcão poezine
Número 6 - Almada, Novembro 1997