quinta-feira, abril 23, 2009

Comemorar o 25 de Abril com poesia, em Almada!

O MEU 25 DE ABRIL
em poucas palavras
Instalação de Poesia Colectiva


No dia 24 de Abril os cidadãos de Almada, e todos os outros, são convidados a passar pelo Forum Municipal Romeu Correia e escrever uma mensagem, em poucas palavras, sobre o seu 25 de Abril. Que, este ano, já faz 35 anos de vida. E de festa.

Forum Municipal Romeu Correia
Câmara Municipal de Almada
24 de Abril de 2009, das 10 às 18 horas

quarta-feira, abril 22, 2009

25 de Abril




Sensação inútil de desespero,
Faseada com doce loucura,
Intercalada com medo,
Num misto de êxtase e ternura.

Maldita hora em que o provei,
pois sonhei que o poderia domar.

Os corvos abandonaram-nos à chuva,
Na nossa troca de sorrisos e cumplicidades,
Sozinhos na multidão que festejava,
O início de uma nova era, de novas liberdades.

Atravessei o rio que nos separava,
Engoli em seco e avancei,
A responsabilidade,
O peso da desilusão,
Ardia por dentro,
Os sonhos de uma canção.

Amor/fulgor/sabor,
Caminha letargicamente depressa na minha direcção,
Amei-te sem receios,
Como os sonhos de uma canção.

Aniversário inocente,
Desta indescritível frustração,
Vem, pára, olha,
Em mim desabaram os sonhos de uma canção.

Mais uma pétala deste livro,
Que se desmembrou,
Caiu,
Na minha mão.


Jorge Ramalho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 25 - Almada, Abril 2004

terça-feira, abril 14, 2009

O Silêncio de que fala Zé


Tudo começou por uma grande paixão pelas ilhas, a quem começámos a chamar “nossas”.
A história que vos vou contar passa-se em duas ilhas, longe daqui, longe, muito longe.
O tempo estava óptimo. Mais chuvinha, menos chuvinha, mas isso é normal.
Eu adoro andar de avião, não só pela sensação de ir, mas também pelas óptimas refeições servidas a bordo. Mas o melhor desta viagem não foi isso.
Lá há água, água, água. Para além do silêncio, é o que há lá mais. Tudo é bonito quando lá estamos e conseguimos sentir os pequenos pingos de água a caírem na nossa cabeça. Tudo se torna menos bonito quando nos lembramos que cá estamos a poupar cada pinga dessas.
As encostas, de onde cai essa água, metem respeito. Grande não é o maior homem do mundo. Grandes são aqueles montes polidos pela chuva.
Vaquinhas, vaquinhas, vaquinhas. Gostava de ser como elas. Ficar sentada a olhar...apenas a olhar...precisar apenas de erva para comer, daquele ar puro para respirar, e daquele barulho do silêncio para ouvir. Para quê o frenesim dos dias, a pressa de chegar ao emprego, o barulho dos carros, as idas ao supermercado, o dar de comer ao cão, de matar a cabeça com coisas sem importância? Para quê? Lá é assim, lá não há complicações, não há!
Agora que cá estou, tudo voltou o “normal” dos dias. Chegada de novo a casa. Lágrimas foram mandadas pelos ouvidos, ao ouvirem de novo o barulho do barulho.

Gostava de conseguir ouvir esse silêncio que lá se faz, aqui (de alguma forma parar o processo). Ainda consigo sentir o cheiro a erva, o ar limpo, as gotas de água, os pés molhados, o balançar do mar e o silêncio das montanhas. Mas o melhor desta viagem foi mesmo descobrir, finalmente, o silêncio de que fala Zé, Tal como som do silêncio de uma ventania, o som que se encerra na barriga de um gato que dorme, o som de uma lagarta que se transforma, de uma semente que germina, de um abraço eterno, o som das montanhas que falam umas com as outras.
Sim Zé, a vida é mesmo bonita...lá, lá é bonita sim.





Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009
(foto da autora)

segunda-feira, abril 13, 2009

depois de poe, veio murakami


“Acordei. Era de manhã cedo. Dei um longo bocejo, e no fim, soltei um som sumido. Abri as pálpebras lentamente, pestanejei duas ou três vezes e ergui o corpo. Bocejei novamente, desta vez sem som, escutando apenas o silêncio do quarto em que estava. Espreguicei-me com vagar, esticando todos os membros do meu corpo. Nenhum ficou ao acaso, não vá dar-se o caso de ficar algum por estalar. É que precisava de toda a mobilidade do corpo para continuar... Olhei em redor, primeiro para a esquerda e depois para a direita. Num ímpeto, saltei da cama. Voltei a olhar, desta vez para ver se estava lá alguém. Estranhamente estava só. Andei então calmamente até à casa de banho e, satisfeitas as necessidades, voltei a olhar em redor. Ninguém. Achei estranho e emiti um som, daqueles que esperam por um retorno. Nada. Se calhar ela tinha saído, para ir buscar o leite fresco à mercearia da esquina e, depois de dois dedos de conversa com o Sr. Vicente, lembrou-se de que ainda tinha de ir à loja de congelados comprar peixe. Deve ter sido isso: ela estava só atrasada. Entretanto, espreguicei-me uma outra vez e caminhei até à cozinha. A casa estava estranhamente escura. As persianas continuavam fechadas, embora, num dia normal, ela já as tivesse subido. Na cozinha procurei comida. Não vi os restos de ontem nem as novidades da manhã. Com fome, caminhei até à sala, tentando perceber o que se passava naquela casa, naquele dia, naquela manhã. Entrei na divisão e foi então que a vi. Ela estava deitada no chão, imóvel. Toquei-lhe no rosto; estava frio, gélido. No peito não vi qualquer movimento. Ela não respirava. Lambi-lhe o rosto e lacrimejei.”

O gato faminto mordeu, cuidadosamente, o corpo da mulher. Mordeu-lhe os dedos, as bochecas, a barriga, as coxas. E, enquanto o sangue escorria, o gato comia. Assim se alimentou até alguém ter dado pela falta da mulher.


Ângela Ribeiro

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

quinta-feira, abril 09, 2009

Sobrevivência



Dá-me a tua mão e vem
não tenhas medo
porque eu levo-te ao bem,
levo-te p'ro caminho da esperança
não é aquilo que não tens.
Dou-te coragem p'ra lutar
contra os teus rivais,
o calor dos meus beijos
a fortaleza dos meus braços
e outras coisas mais.

Não vivas na ignorância
que essa vida te quer dar
não deixes que o desânimo
se apodere de ti,
dá-me a tua mão e vem:
não tenhas medo de mim.

Não queiras morrer à míngua
nem que o teu corpo apodreça
no vácuo do Ser.
Levanta-te, segue o meu caminho
e verás que mais tarde
hás-de vencer.


Poema de Artur Vaz
ilustração de Henry Mourato

(publicado pela primeira vez em Jornal de Almada,
16 de Maio de 1970)

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

A causa das coisas




a maçã que eu encontrei hoje debaixo da cama
só lá foi parar porque eu a deixei cair
há dois dias atrás e me esqueci dela
até que hoje não sei porquê
espreitei para debaixo da cama
e lá estava ela a maçã que encontrei
hoje debaixo da cama.
é claro que se eu não tivesse espreitado
para debaixo da cama
a esta hora ela ainda lá estaria
a maçã que hoje eu encontrei debaixo da cama.
só não está lá ainda porque hoje
não sei porquê eu espreitei
para debaixo da cama e
a encontrei.
se eu não tivesse tirado de baixo da cama
a maçã que hoje encontrei debaixo da cama
a esta hora ela ainda lá estaria
por baixo da cama.
e isto é como tudo na vida.


António Vitorino
http://vitorinices.blogspot.com/

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009



isto é muito fácil tirar
tabaco da máquina mesmo
quando tens de pedir para
carregarem no botão do “on”
é bom sermos burgueses
termos dinheiro para jantar na
cave
até parece uma canção do Veloso
mas não é…
ter dinheiro para comprar
uma casa
ou coragem para ocupar
uma herdade
ganas de mudar
sentir o mundo como
nosso
um projecto nosso…
a mudar
a transformar e viver
pisar com os pés todos
juntos formando circunferências
sobre o globo terrestre
com as mãos unidas
na unidade



BB Pásion

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

Vocês nada têm a ver com isso
E não queria maçar-vos
mas gostaria que me enviassem
a vossa douta opinião
de qual a melhor maneira
de debelar a minha inquietação.

A toda a hora oiço falar
ser necessário ouvir os outros
dialogar fazê-los participativos
que é a melhor maneira de melhorar
a sociedade e a vida de todos
quer felizes quer aflitos


Participar não é fácil É preciso
desejar mas também ser desejado
Para ser partícipe sobretudo de uma causa
tem de ser-se activo Falar não basta
como não chega dizerem-lhe bem-vindo
ao nosso seio Se não estiver seco
o leite é para partilhar por todos

Confesso que estou confuso inquieto
ao participar-vos (comunicar-vos …)
que há quem me queira participativo
e parece não me deixar tomar parte
e muito menos ser parte associar-me
Ou seja sou participável sou
mas não sou parte Por partes gagas
de algum dos surdos apelativos arautos
da participação que a não propicia

Será da minha idade esta confusão
ou é real e necessária cá ao povão
desorientado com tanto aldrabão
Mandem-me a vossa séria opinião
Sendo simples e honesta a reflexão
é já uma boa maneira de participação
ou não? Ponto de interrogação!


Alexandre Castanheira

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

terça-feira, abril 07, 2009


Pedro, escreve e nas suas pausas temporárias fuma cigarros,atrás uns dos outros, ao lado um cinzeiro..e os seus pensamentos ficam presos ,ecoam no silêncio perfumado extasiante da fumaça,o papel mistura-se com o cheiro do tabaco marboro.Será Ventil,será tabaco de enrolar? Os seus dedos amarelos escrevem ,solta palavras para exorcitar os seus demónios.Esquece-se de tudo, até dele mesmo. Os seus olhos são como um xamã que mergulha numa viagem à procura de si mesmo.O tempo passa ! O Horizonte é o carbono, os sonhos escapam-lhe pelas mãos.A cidade é frenética,o seu canto é um quarto escuro à parte de todos.É no fumo que tudo parece verdadeiro , é no fumo que ele encontra um mundo possível dentro deste que vivemos no presente, que explora as suas histórias intensas. É ali que encontra os seus melhores momentos de inspiração no acender do cigarro até ao seu fim.

( Pedro_Personagem do seu próprio monólogo - o escritor poeta urbano depressivo, decadente)



Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

Olhares saudosos




No círculo dos encontros
Surpresas abandonadas
No vazio das lembranças
Ecoam encantadas

Vultos dos passados
Perpassam na memória
Celebrando sentados
A presença da História


Eloísa Menezes Pereira

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

segunda-feira, abril 06, 2009

do homem que me persegue e da vida:


I
De mãe Mãe, pai operário, José Mãe Homem nasceu cedo e em Dezembro numa casa que tinha uma porta que dava para o Éden.
O Zé, comeu tantas maçãs, tantas as suficientes para se libertar dos conceitos do Bem e do Mal e partiu a cavalo da Serpente. Para onde?! – Quem sabe!?... Ouviu-se falar que discutiu com a família as leis do povo e a Terra Prometida e partiu…
A TV não disse mas fala-se por aí que, José Mãe Homem, morreu cedo e em Dezembro com o último tiro de uma grande batalha.
Muito mais que a Nação sofre a mãe, viúva, que diz às pessoas quando passa por elas:
- Tal como o pai, foi Homem, depois… morreu!...
- Quem foi esse Homem de que a Mãe nos fala, cuja vida e morte não se aprendem na escola?!
José Mãe Homem, cedo e em Dezembro:



II

“……………………….”
Louco descabido!
Um dia a vida bateu à porta do teu Nada, foste à escola.
Mais tarde, tudo bateu à porta da tua Vida, foste ao estádio!
Do lindo berço azul que defecaste, ficaste tu:
Cristão, ateu, pervertido e castrado, conformado
Com os males da Terra e com o caminho
Que a mãe sonhou para ti!
Descansa, que a morte virá no dia exacto,
Tal qual um dia nasceste em Dezembro!....



Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

Razões do Coração




Eu sei que é bastante fácil, dizer num poema,
Que nos sentimos palestinianos do coração
Por termos a sorte de estar longe do dilema,
Por nem precisarmos de saber o lado da razão

Não escutamos os obuses e as balas no ar
Tomamos partido, seguindo o que diz o coração
Muitas vezes esquecemo-nos de pensar,
Que no Médio Oriente, não vale de nada ter razão

Todos eles dizem que sim e que não,
É por isso que continuam em guerra
Matando sem qualquer contemplação
Gente que apenas quer ter paz na Terra

Esquecem e ignoram a maioria silenciosa
De ambos os lados, que continua a sonhar
Com a paz, distante da gente orgulhosa
Que esqueceu o significado da palavra amar

Eu sei que é bastante fácil, dizer num poema,
Que nos sentimos palestinianos do coração
Por termos a sorte de estar longe do dilema,
Por nem precisarmos de saber o lado da razão



Luís Milheiro
http://casariodoginjal.blogspot.com/

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

Pássaro da noite





Os poetas são homens solitários
numa solidão que mata devagar.
São mendigos de amor e de amizades
são mensageiros de ideias
são pássaros da noite.

Criam alentos de esperança
em pasmos de emoções
sofredores moribundos
das palavras.

Pássaro da noite
não quero ouvir
os teus passos
no tecto da minha solidão.


Maneta Alhinho

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

sábado, abril 04, 2009

Resumo



Pulso a pulso
E por dentro só
Quase rebento
O hermético nó
Que lavra o ergo cogito
D´ entrudo

Oco e avulso
Despido e rouco
Sol branco
Um frio tão pouco
Remeto a palavra
Ao somatório de tudo

Cantando melhor
Sob os mantos que sobram
Ouve-se ao longe o som da vida



Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

sexta-feira, abril 03, 2009

Sem dizer adeus





Toldam-se-me os sentidos
Encurralados no silêncio da sua ausência.

Faltam-me as palavras
(Sinto-as presas entre os dedos)
Quero, mas não consigo,
Expressar a dor que sinto.

Escrever nunca me pareceu tão difícil...

Misturam-se as lembranças
Entre as sílabas destes versos
Memórias que encontro dispersas
Embaladas no seu sorriso
Que recordo com saudade.

Lamento não lhe ter dito adeus
Antes da viagem final
(ai tanta coisa deixei por dizer!)
Por isso daqui lhe envio,
Em jeito de perdão,
Um abraço forte e sincero
Neste poema embalado...

Até sempre amiga,
Poetisa de sonhos e emoções
Companheira da Poesia Vadia.


(evocação da poetisa Anyana, falecida recentemente)

Minda
Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009