quinta-feira, abril 02, 2009

Tempos Mortos e Nulos




Com uma espinha de peixe
atravessada na alma
vivendo agarrado ao vazio
com todos os dedos
condenado a morrer
sozinho na vertigem
da espiral sem fundo
esquecida nas trevas
à procura de mim próprio
num rio salobro de lágrimas
sempre a mesma imagem
distorcida de um sonho
reflectida no espelho
de outro sonho
como um fantasma vagueando
sem rumo nesta casa de infâmias
na qual nunca dormiu
uma pessoa feliz...



Vang!
2008

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

Desejo





Desejo, Sombra da Racionalidade
que persegue o Homem.
faz da Humanidade um poço de desespero,
e da Terra um paraíso.

Desejo, sombra do Pensamento
que se move pelo espaço
que cada um Imagina
mas não sabe que é Infinito.

Desejo, Sombra dos Homens
tão fatal, como o Destino
tão vital como a água
tão animal, como o Instinto.


Violeta

Debaixo do Bulcão poezine
Número 35 - Almada, Março 2009

quarta-feira, abril 01, 2009

Debaixo do Bulcão poezine 35, Março 2009: editorial

O poezine dos jovens dos 14 aos 81 anos!




Quando eu era pequenino, havia uma publicação de histórias em quadrinhos que se apresentava como "a revista dos jovens dos 7 aos 77 anos" - era, passe a publicidade, o Tintin.

Ora, isso acontecia quando eu era pequenino. Nos anos setenta (do século passado)!

Nesse tempo, em Portugal, andava toda a gente muito ocupada com o futuro do país. Ninguém se preocupava muito com a poesia - a menos que a poesia fosse, como a cantiga, uma arma!

E a poesia era, de facto, uma arma: estava na rua; era mais acção e menos palavra!

Foi preciso esperar pelos anos 80 - por esses anos 80 que, contrariamente ao mito hodierno, não foram de euforia, mas sim de desemprego, despedimentos colectivos e outras tristezas que, citando (algo abusivamente) a grande Sophia de Mello Breyner Andresen, "não podem sequer ser bem descritas" - para que a poesia "renascesse". Foi então, a meio dessa "mítica" década, que começaram a proliferar as publicações de poesia em formato fanzineiro. Muito inspirados - e apoiados - pelo não menos mítico DN-Jovem (suplemento literário do Diário de Notícias), apareceram fanzines literários, muitos e diversificados. A memória já me vai falhando, mas, ainda assim, consigo lembrar-me de dois deles: o Ara Gris e o Fragas (este último publicado no Seixal por um grupo chamado Projecto Poros).

Foram-se os anos 80, o pessoal dedicou-se a coisas mais próprias de gente adulta, e eu fiquei, como sempre, sem vontade de fazer coisas de gente adulta - logo, sem mais contacto com "o pessoal". Com esse "pessoal"...
Por sorte, abriu nessa altura - em 1989 - o Ponto de Encontro (a também mítica Casa Municipal da Juventude de Cacilhas). E foi lá que, entre muitas noitadas, muitos copos, muita música, teatro e outras actividades mais ou menos artísticas e culturais, conheci as pessoas que me incentivaram a criar o Debaixo do Bulcão.
Em primeiro lugar, o Tó Boieiro (o tal que, nos intervalos dos recitais que fazia, se queixava que "a poesia está morta, ninguém publica, e ainda dizem que somos um país de poetas!"). Depois, o José João Mota. E também o Pedro Morgado, que organizava a Feira do Fanzine.

Já em 1996, lá me decidi a falar com eles e realizar o projecto Debaixo do Bulcão. (A propósito, e para que ninguém se melindre: estou muito grato a todos os que me ajudaram a arrancar com este projecto e a mantê-lo - mas não os vou nomear, por falta de espaço. Ok?).

Debaixo do Bulcão que, num primeiro momento, pretendia publicar, em edição alternativa, textos de jovens poetas. Mas que, a partir do segundo momento (ou do terceiro, sei lá), entendeu que o importante era publicar, em edição alternativa, quem não o conseguia fazer pelos meios convencionais - jovem ou menos jovem, isso deixou de interessar.

Como é bom de ver, o Debaixo do Bulcão assume-se como herdeiro da literatura fanzineira portuguesa dos anos 80. E, durante quase uma década em que praticamente deixaram de se fazer estas edições alternativas de poesia, resistiu, publicou algumas centenas de autores, e fez a ponte para o que, em Almada, havia de vir depois, e para o que existe agora.

No princípio deste século 21, Ermelinda Toscano publicou a antologia Alma(da) Nossa Terra, na qual incluiu uma boa dose de poemas editados anteriormente no Debaixo do Bulcão. E essa antologia foi o ponto de partida para o projecto Poetas Almadenses
(http://poetas-almadenses.blogspot.com/) - que alcançou, com muito mérito, patamares nunca antes acessíveis a este projecto bulcânico.

Já em 2009 surge o movimento Jovens Poetas Vadios, com um projecto mais ambicioso (http://jovenspoetasvadios.blogspot.com/). Fico muito contente: as ideias que eles defendem agradam-me muito, identifico-me facilmente com as suas ambições e, por isso mesmo, desejo-lhes os maiores sucessos.

Temos pois, nesta cidade de Almada, três projectos empenhados na divulgação de poesia: Debaixo do Bulcão, Poetas Almadenses e Jovens Poetas Vadios (por ordem de entrada em cena). Orgulhemo-nos disso!

O Debaixo do Bulcão promete continuar a contribuir para divulgar a poesia que anda por aí, perdida, esquecida ou simplesmente envergonhada. E, cumprindo a sua actual vocação de publicar jovens e menos jovens, tem, na presente edição, poetas dos 14 aos 81 anos!

Como em quase todas as edições anteriores, há novidades, regressos e continuidade. Novidades: três autores que, embora com obra publicada noutros locais, colaboram pela primeira vez com este poezine. São eles, João Rato (do blogue reidosleittoes.blogspot.com), Maneta Alhinho, (jornalista - até há pouco tempo meu colega na redacção do Notícias da Zona - e guionista em séries de televisão) e Artur Vaz (investigador de História local, dirigente da associação cultural Ecos D'Art e colaborador assíduo de órgãos de comunicação social - que, aliás, conheci em 1995, no quinzenário Sul Expresso, onde ambos escrevíamos, e que enviou para esta edição o primeiro poema que publicou, em 1970, no Jornal de Almada).

Outra novidade, e não menor: Marina Soares, uma das criadoras do inovador grafismo da revista P'Almada, aceitou o desafio de fazer uma edição como esta, em formato assumidamente fanzineiro, impressa em fotocópia. O resultado é este. Mais palavras para quê?

Só se for para dizer que - embora já não seja novidade - orgulho-me, também, de ter nesta edição mais um poema de Alexandre Castanheira (homem que tem dedicado parte substancial da sua actividade à descoberta de jovens talentos - e eu que o diga, pois foi ele, o Castanheira, quem, no final de uma sessão de poesia, em 1981, me "descobriu" e incentivou a continuar).

Tenho muito gosto em ver, nas páginas deste poezine, todos os textos de todos os poetas que nele quiseram participar.

Agradeço a Ermelinda Toscano (dos Poetas Almadenses e da SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada) o inestimável apoio que tem dado a estas edições.

Mas tenho a maior satisfação por ter, neste número, mais um texto de uma jovem autora, de 14 anos. Não digo quem é (descubram vocês). Mas garanto-vos que é por isto mesmo que o Debaixo do Bulcão continua a fazer sentido. Não já por ser (como foi em 1996) a voz dos jovens que querem publicar mas não têm onde - mas porque (em 2009) é um poezine que publica (desculpem lá, mas não resisto a reafirmá-lo) autores dos 14 aos 81 anos!

E é isso mesmo que vamos continuar a fazer!

António Vitorino
(editor)

Colaboram nesta edição: Marina Soares (grafismo), Ângela Ribeiro, Artur Vaz, António Vitorino, BB Pásion, Alexandre Castanheira, Eloísa Menezes Pereira, Helga Rodrigues, João Rato, Maneta Alhinho, Luís Milheiro, Marta Tavares, Miguel Nuno, Minda, Mário Lisboa Duarte, Pedro Alves Fernandes, Vang, Violeta (textos).

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

BLOGUE SUSPENSO POR TEMPO INDETERMINADO

Dificuldades de acesso à internet e alguns entraves que têm sido colocados ao trabalho do editor deste blogue, obrigam a suspender as postagens por tempo indeterminado.

Peço a vossa compreensão e apresento desde já o meu pedido de desculpas por eventuais inconvenientes que esta interrupção possa implicar.

Uma explicação mais detalhada encontra-se em

http://vitorinices.blogspot.com/2009/02/blogue-suspenso-por-tempo-indeterminado.html

Saudações culturais

António Vitorino
(editor)

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Ataque de esquizofrenia cultural no terminal rodoviário de Cacilhas




à espera de transporte pró seixal
num microcosmos de cervejaria
tou vendo a emissão lá da bahia
("imagina o brasil sem carnaval") *

enredo-me neste reino animal
sonetando a ventura de hoje em dia:
a estamparia cultural que é minha.
isto assim não está bem. mas não faz mal:

aqui num portugal de pequeninos
eu não olho pró lado: já bastavam
as grandes porcarias que os meninos

sempre fazem na lama em que se encharcam.
são muito europeus: são sibilinos
e se mais mud houvera lá chegaram.



*(pergunta retórica de Daniela Mercury
em entrevista à TV Record, emitida em Portugal a 16 Fevereiro 2007)


Affonso Gallo (poema inédito)

(foto de António Vitorino: grafiti em Cacilhas, Abril 2008)

sábado, fevereiro 21, 2009

NUMERO DO INTERMEZZO

(HEINE)





Das minhas mágoas fiz canções suaves,
Que partindo, em alegre revoada
Tomam caminho - pequeninas aves -
Do coração da minha bem-amada.

Porém, na volta, essas canções luzidas
Vêm tristes, ao contrário, vêm chorosas,
E nem siquer, alludem, doloridas,
Áquelas regiões mysteriosas.

Porto - 1888

Joaquim d'Araújo

Em Jornal do Domingo, 19 de Fevereiro de 1888
(reproduzido de acordo com a ortografia da época)


Jornal do Domingo na Hemeroteca Digital da Câmara Municipal de Lisboa:

terça-feira, fevereiro 17, 2009





I. Conchas


Tu e eu, metades iguais
Do mesmo fruto
Que o mar, de paixão,
Salga.

E a concha se abre,

Bivalve moradia onde
Em teu corredor me esquivo.

E a concha se fecha

E de duas, uma só se faz.
Feita de tu e eu.



II. Jogos de salão


Cuidadoso aplica o giz azul. Boleando.
Deitou-a sobre a mesa de bilhar,
Os mamilos
Parecem-lhe dois pontos azuis no pano verde.

Os pontos no pano verde parecem-lhe mamilos azuis.

Risca a preceito o triângulo,
(como se fosse pélvico em negros reflexos de azul)
Sobre o pano verde.

O taco aponta para não falhar o embolse
(consumado)
Rasgado no pano verde.


III. Árvore de Fruto

Estremeceu quando
Um riacho de vida a invadiu.

(Estremeceram as margens quando
O rio de enchente se fez.
Fertilizam os campos de água
Encharcados.)

Nascerá o fruto de
Tão bem tratada árvore.


IV. Cio

Como um gato dissimulo-me
Por detrás das ramagens.
Aguardo-te a chegada distraída,
Confiado no silêncio do luar.
Cheiro-te a passagem de odor
Feito passaporte.
Ataco-te o cio num miado
Lancinante.



PreDatado
©2009



Poema reproduzido com o consentimento do autor.

Publicado originalmente em
http://www.predatado.blogspot.com/

(Foto de Portal Biologia)

sábado, fevereiro 14, 2009

O Patinho Feio nas Ondas da Internet

(um romance de cordel...)




O Patinho Feio estava
solitário no jardim,
de repente apareceu
a garota Yasmim.

Ela disse: "eu me enganava
ao pensar que era feio,
mas você é muito lindo!
Vou lhe dar o meu emeio;

anote, querido Pato:
Yasmim @bol
ponto com ponto br
moro na Rua do Sol".

O Patinho saiu contente
com as palavras que ouviu,
foi pra casa tão alegre
que muito pouco dormiu.

Bem cedinho ele acordou,
foi pra escola estudar,
porque era um garoto
aplicado e exemplar.

Ao chegar na sua escola,
ele estava radiante,
muito cheio de alegria,
otimista e confiante.

O momento ideal
ele soube esperar
pra poder ir a Lan House
e assim poder teclar.

No domingo ele enviou
uma mensagem singela
dizendo que estava 'louco'
para encontrar com ela.

Logo veio a resposta
da garota Yasmim
marcando encontro com ele
naquele mesmo jardim!

O Pato chegou primeiro
bem alegre e sorridente.
Sua auto-estima agora
lhe deixava bem contente.

A garota foi chegando,
deu-lhe logo um beijinho,
dizendo: - querido Pato,
você é mesmo um gatinho!

Ela perguntou: "Querido,
quantos irmãos você tem?"
Ele disse: tenho quatro
e a todos quero bem;

sou o caçula da família,
um Patinho desprezado,
me chamam de loiro-burro
medroso e desajeitado;

todos aqui me rejeitam,
tenho pouca alegria,
mas agora com você:
outra fase se inicia!"

As colegas de Yasmim
quando viram aquele Pato,
disseram pra sua amiga:
- realmente ele é um gato!

Naquele mesmo dia
Yasmim foi conhecer
a família do Patinho
e amizade assim fazer.

Quando Yasmim chegou,
todos estavam animados:
o sogro, a sogra, a vovó
e também os seus cunhados.

Ela logo percebeu
algo bastante esquisito
pois o seu namoradinho
era mesmo o mais bonito!

E além de mais bonito
era um Pato exemplar:
não bebia, nem fumava
e gostava de estudar.

O namoro prosseguiu
e logo estavam casados,
hoje estão em harmonia
vivendo bem amparados.

O Patinho estudioso
passou no vestibular
agora é professor,
começou a lecionar.

Yasmim, sua esposa,
se formou em professora,
já deus luz a dois "patinhos"
e quer ser uma doutora.

Os filhinhos do casal
são de cores diferentes:
pois os pais de Yasmim
são dois afro-descendentes.

Essa estória que narrei
tem sabor de "quero mais"!
então dê prosseguimento
para ver aonde vai!!!


Antonio Carlos de Oliveira Barreto

Edições Akadicadikum
Salvador, Ba, Brasil


Nota do editor deste blogue: O que aqui se apresenta é um exemplo da "literatura de cordel", género literário levado pelos portugueses para o Brasil, e muito cultivado, nos dias de hoje, no Estado da Bahia. O "cordel" nasceu em Portugal, a partir da poesia popular e trovadoresca, e teve o seu expoente máximo, em terras lusas, durante o século XVII. Atualmente deixou de se praticar em Portugal. Contudo, em terras brasileiras, é reconhecido como género literário de pleno direito. Para mais informações, consultar o site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (http://www.ablc.com.br/) ou o Portal da Literatura de Cordel (http://www.portaldocordel.com.br/). No meu blogue pessoal tenho um artigo sobre o assunto, com mais alguns "liks" (em http://vitorinices.blogspot.com/2009/02/literatura-de-cordel.html) AV

sábado, fevereiro 07, 2009

Cacilhas




A tua história
Continua um mistério
Envolta nos vestígios
De povos milenares
Que chegaram pelo mar
Às tuas misteriosas margens
Empurrados pelo destino
Depois de tantas viagens...

Uns ficaram,
Outros partiram.
É sempre esta,
A história dos navegantes
Que deixam o corpo e a alma,
Em lugares tão distantes...

Luís Alves Milheiro

em Palavras ao Tejo
Edição SCALA, Dezembro 2008
(fotografia: Cacilhas, no final da década de 1970; autor não identificado)

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Poesia na Mostra de Teatro de Almada 2009


"Defesa dos Lobos Contra os Cordeiros", um espectáculo com poemas de Hans Magnus Enzensberger, Henri Michaux e Charles Bukovski, ditos por José Vaz (produção O Grito - Associação Cultural), integra o programa de abertura da Mostra de Teatro de Almada 2009, sexta-feira, 6 de Fevereiro, à noite, no Fórum Municipal Romeu Correia.

"Desde a infância, ensinam-nos a temer e a odiar os lobos. O cordeiro, pelo contrário, é-nos apresentado como o ideal ético a perseguir. É com ele que o lobo deverá um dia aprender a pastar... Eis o politicamente correcto, a cartilha sentimental convencional, a moral de mestre-escola"... lê-se no texto de apresentação do espectáculo.

Este recital de poesia teve a sua estreia em 2001 - a convite do Debaixo do Bulcão, e em representação deste projecto - inserido na programação da 1ª Festa Amarela, do Centro Cultural Juvenil de Santo Amaro (Casa Amarela, no Laranjeiro).

A Mostra de Teatro de Almada decorre entre 6 e 22 de Fevereiro, em vários locais do concelho.
Começa com um espectáculo de rua, na Praça da Liberdade, com a banda "O Menino é Lindo" a partir das 21h00; segue-se o recital de poesia, no Fórum Romeu Correia e, no mesmo local, um encontro com João Brites, director do Teatro O Bando

Programa e mais informação disponíveis em:

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Elogio da vida urbana


Existem alturas
Em que explorando as ruas ao acaso,
Encontro os abraços da euforia, os
Sorrisos francos da harmonia e
O contar dos passos,
Traços com que
Desenho no espaço da avenida
Os esboços de uma ferida.

Existem certos momentos,
Nos limites pesados do tempo,
Em que quase distingo
Os gritos alegres da fantasia,
O clamor da noite fria e
O recomeço das histórias antigas
Dos amores e das cantigas.

Existem dias imensos,
Radiantes e intensos,
Em que o material cinzento da cidade,
Se dilui em breve pranto, em
Brava ironia de ser humano,
Em fugas de tanto querer,
De tanto esquecer.

Existem os espaços sempre iguais,
Imóveis, fixos na memória,
Em que o forte aroma, o suor,
Flutua firme no ar, nas formas
Distantes de ver e
Na permanência do lugar,
Na luz que sublime reflecte,
No meu concreto olhar.

Já passaram tantos medos,
E tantos mais se fixam no
Frio das paredes,
E nos nós dos cruzamentos.
Lembranças soltas e presas
No cimento e nos pavimentos
E no passar dos momentos.

Enfrentar a corrente sedenta da cidade,
Crescer sempre em pensamento e
Nunca em idade, fazer da dúvida a verdade
Mesmo se não encontro no céu uma boa estrela,
Faz do meu desejo uma flor
E do teu amor a minha vontade.


Miguel Nuno


Debaixo do Bulcão poezine
Número 16 - Almada, Janeiro 2002
(Grafismo de Jorge Feliciano)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Esplendor nocturno

Quedo-me perante a noite
de firmamento limpo
e de estrelas que completam a ilustração.
Esta quietude deslumbrante
convida à extroversão sentimental.
- Será esta a noite dos poetas?
A lua magna transmite a afirmação.
Mas onde estão eles, os da sumptuosa galeria?
Eu creio que nem Pessoa, nem Gedeão,
ou Alegre, ou Camões,
ou Florbela, ou Sofia,
estarão à altura desta artística consagração.
Apesar de uma fileira inefável,
nessa noite,
a lua e as estrelas,
cantam um poema incomparável.




Fernando Barão


A sombra dos Sentimentos


Em Alma(da) Nossa Terra
Antologia de Poetas Almadenses, organizada por Ermelinda Toscano
Edição SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada
Almada, Março de 2006

PREITO A UM POETA…

a Fernando Barão


Nada é mais certo,
que só o tempo
poderá assolar
a tua argamassa.

Só o futuro será juiz…

Deixa mourejar
o teu ímpeto desafiar os meus braços,
dar força à centelha que me alumia,
rasgando o desvão
dos meus versos.

O teu retrato é este!

Sulcos de memórias e vivências, por ti partilhadas.
Jovialidade e clareza
que embaraça o temporão.
Distância que só tu sabes encurtar.

Só o futuro será juiz, todos nós sabemos…

Mas amigo!
as aves continuarão
a desafiar clarins de liberdade.
E nesta caminhada, que é a Vida,
a tua voz será sempre,
enquanto os poetas quiserem,
uma alfinetada no silêncio,
vestida de palavras, sob palavras.

Só assim, se enraíza um poeta…


Artur Vaz

In: Caderno Index Poesis n.º 73
de Janeiro de 2009 – Poemas para um Amigo

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Sebastião da Gama


Servo de Deus,
poeta da natureza.
Tu serás sempre
anjo ancorado
na Serra-Mãe.

Terra que tu beijaste
e que por ti foi cantada,
nos poemas que deixaste
na obra inacabada.

Tu serás sempre uma voz
do Amor e da Liberdade,
na tua nova morada.
Poeta da natureza
da Távola, por ti criada.

Foste o arauto
e a voz da Arrábida,
Campo Aberto e Cabo da Boa esperança.
Pelo sonho, tu seguiste
entre estevas e flores,
num supremo querer divino
em férteis e encantados amores.

Foste Mar-Azul
memorial do teu povo,
êxtase e presença espiritual.
Tantas vezes te chamaram louco,
deixa lá isso!
Em tua defesa...estão os teus cânticos.
Os poetas, esses nunca morrem,
enquanto houver poesia, serão imortais.

Porque tu, Sebastião da Gama,
nesta encruzilhada da Vida,
foste e serás,
como Camões, Bocage e Pessoa,
um poeta genial.


Artur Vaz

Poema publicado com o consentimento do autor. A propósito da exposição "15 Artistas em homenagem a Sebastião da Gama", patente entre 24 de Janeiro e 7 de Fevereiro de 2009, na Biblioteca Municipal de Palmela. (Pintura, de Ana Maria Godinho, no catálogo da exposição)

quinta-feira, janeiro 22, 2009




Sonhos inertes em tempo estático
Vagueando pelas escadas estreitas
Do bairro antigo
que consigo está


Cheio de recordações de anteriores momentos
gravados em mosaicos deteriorados
pelo tempo

Esse mesmo tempo que abraçou
o momento como que se
da solidão se tratasse

Dessas sombras, desses momentos



L. Miguel Marques F. V.


Debaixo do Bulcão poezine
Número 1 e meio - Almada, Janeiro 1997